
A morte de Beth Carvalho, em 30 de abril de 2019, definitivamente deixou um luto como nunca antes sentido no samba, tendo sustentado dentro do gênero o título de madrinha. É como se ampliasse o pressentimento desolador de que entramos em uma etapa da história de despedidas de expoentes da música brasileira.
A ausência de Beth também faz o Carnaval se transformar em um evento menos festivo, ainda que as músicas que interpretou sejam eternas. No documentário “Andança – Os Encontros e as Memórias de Beth Carvalho”, o diretor Pedro Bronz mergulhou em um longo processo de avaliação de mais de duas mil horas de materiais de arquivo, muitos deles contidos em gravações raras presentes em fitas VHS.
Com o conteúdo rico, foi tomada uma medida arriscada, mas que se mostrou correta: a decisão de não intercalar os recortes com depoimentos de terceiros. Com tudo condensado em 112 minutos, o filme sempre evidencia uma Beth Carvalho extremamente altiva, que não se deixa contaminar por amarguras nem em seus últimos momentos, em que precisou realizar apresentações deitada por conta de um estado físico debilitante.
Outra característica realçada é a de uma Beth que incutia opiniões fortes em um contexto complexo para artistas mulheres. Bem-quista por seus companheiros pretos, ela não esteve em uma posição de apropriação, mas de exaltação, defendendo a negritude como protagonista da brasilidade.
Portanto, o que temos em “Andança” é algo que entusiasma convertidos com registros inéditos, ao mesmo tempo em que evidencia as maiores virtudes de Beth Carvalho para os não nascidos durante o seu ápice como cantora.
★★★
Andança – Os Encontros e as Memórias de Beth Carvalho
Direção de Pedro Bronz
Assistido na 26ª Mostra de Cinema de Tiradentes
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