Curta-metragista nascido em Diadema, Tiago A. Neves está há quase uma década em atividade com projetos de micro-orçamento, nos quais muitas vezes a dramaturgia foi amparada na vivência de gente anônima, por vezes sob uma redoma invisível de influência política.

Ao alçar voos mais altos submetendo o seu segundo longa-metragem, “Cervejas no Escuro”, na Mostra Aurora de Tiradentes, estende o discurso para o registro como possibilidade de reverter apagamentos. De longe o mais afável da seleção, o filme traz Edna (a luminosa Edna Maria) como figura central, uma senhora humilde e viúva.

Ainda que não tenha vivências com o fazer cinematográfico, quer de algum modo preservar as memórias felizes com o amado a partir de um filme que deseja submeter para um festival. Filmes sobre filmes costumam ter resultados cativantes, sobretudo com a exibição das complicações que estão por trás da construção de cenas. Há também aqueles que preferem estar do lado do espectador, que pode se reconhecer em narrativas ficcionais.

Ao seu modo, “Cervejas no Escuro” é eficiente nessas duas frentes. Com uma junção de atores profissionais com outros sem muitos registros de experiência, Tiago A. Neves promove uma dramédia em que circunstâncias simples do projeto da protagonista têm a encenação comprometida pela inaptidão dos envolvidos, quando não pelos egos expondo credenciais não compatíveis.

A exemplo de uma extensa e hilariante sequência onde Edna instrui um casal de intérpretes a simular um beijo afetuoso que experimentou com o marido na juventude. Por outro lado, o desejo de materialização de recordações de Edna, usando ferramentas audiovisuais, também é capaz de extrair o que há de mais puro em seus colegas de empreitada, alguns definitivamente muito engajados no cumprimento do cronograma de filmagens para que a sua obra amadora seja apresentada ao público a tempo.

No entanto, se como comédia “Cervejas no Escuro” é bastante funcional, há uma falta de tato em lidar com elementos mais densos. Ainda que o luto de Edna receba uma resolução satisfatória, limites muito evidentes são percebidos assim que o longa expõe uma vontade de amplitude de incômodos individuais como se fossem coletivos.

Ao visitar aqui o passado de um século atrás da Paraíba, precisamente a Revolta de Princesa, “Cervejas no Escuro” caminha com tropeços pelo didatismo empregado e por uma desconexão entre esse episódio histórico e o que Edna atravessa em sua contemporaneidade dentro desse mesmo cenário. Talvez uma nova aventura de Tiago A. Neves como diretor e roteirista o prepare para revisitar alguns dos temas de “Cervejas no Escuro” com mais precisão.

★★★
Cervejas no Escuro
Direção de Tiago A. Neves
Assistido na 26ª Mostra de Cinema de Tiradentes

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