Entrevista com Raphaël Personnaz, ator de “Bolero – A Melodia Eterna”

Um de nossos eventos favoritos, o Festival Varilux de Cinema Francês teve a sua mais recente edição inserida no calendário de novembro do ano passado. Naquela ocasião, o Cine Resenhas teve a oportunidade de entrevistar toda a delegação francesa convidada para as cerimônias de abertura e sessões comentadas em São Paulo e Rio de Janeiro. Nela, havia o ator Raphaël Personnaz, protagonista do novo filme de Anne Fontaine, “Bolero – A Melodia Eterna”, onde tem a grande responsabilidade de interpretar o compositor Maurice Ravel.

Lamentavelmente, tivemos problemas técnicos com a captura da conversa em vídeo (formato que preferimos para oportunidades como essa), mas felizmente preservamos os arquivos em áudio, cuja transcrição pode ser lida a seguir.

Raphaël. Primeiro, quero saber se você se lembra do seu primeiro contato com a composição “Bolero”, quais foram as emoções que esse primeiro contato despertou em você. Meu primeiro contato foi ainda na adolescência, quando assisti “Femme Fatale”, do Brian De Palma. Ryuichi Sakamoto fez os rearranjos.

Ah, o meu foi em um filme do Claude Lelouch chamado “Retratos da Vida” (“Les Uns et les Autres”), onde uma das cenas finais acontece na Place du Trocadéro, em frente à Torre Eiffel, e o George Donn dança o “Bolero” de Ravel, coreografado por Maurice Béjart. E foi um choque cinematográfico, porque essa sequência é particularmente bem filmada, bonita, estética e musical, com a descoberta do “Bolero” e da coreografia. Então na verdade, é engraçado, porque une várias das minhas paixões. E tudo isso aconteceu durante esse filme do Claude Lelouch que, aliás, entre parênteses, foi à pré-estreia de “Bolero – A Melodia Eterna” na França. E eu pude dizer a ele pessoalmente o quanto aquilo me marcou. Essa música, de toda forma, acompanha a vida dos franceses em geral desde a infância, porque é um tema que se ouve com frequência, nos filmes, em cerimônias um pouco mais formais, o “Bolero” é muitas vezes tocado.

Já entrevistei a Anne Fontaine quando ela veio ao Festival Varilux de Cinema Francês. Ela apresentou “Gemma Bovery” e me contou que todos os filmes que produziu antes e que produziria depois teriam um grande elo. Todos os seus personagens, sejam anônimos ou grandes personalidades, geralmente são mostrados em um momento pacífico de suas vidas e que, de certa forma, são tocados por um grande acontecimento. Acho que Ravel, mesmo sendo essa grande personalidade, também se assemelha a outras figuras criadas por Anne Fontaine. Você sente que não fez somente uma cinebiografia, justamente por esse aspecto de não ter a obrigação de mostrar uma mera linha do tempo sobre Ravel?

Ah, sim, sim. Isso era, na minha opinião, muito importante. Porque eu desconfio de filmes assim… eu os chamo de filmes Wikipédia. Aqueles enciclopédicos, que citam todos os personagens, reconstituem tudo para dar uma boa aula. Bom, eu não acho isso interessante. É melhor ver um documentário ou, de fato, consultar uma enciclopédia. O interessante aqui foi justamente pegar esse personagem do Ravel no momento em que ele está em crise. É alguém em crise de inspiração. É realmente alguém que leva uma vida muito monástica, muito simples. Há um testemunho, um diário de bordo do Erik Satie — outro compositor — que descreve seu dia de forma mortal: às 8h30 café, 8h40 observo a natureza, 8h45 começo a escrever. Ele coloca tudo assim, tudo é ritualizado. O Ravel também era assim. O que o torna imensamente simpático é que por trás da normalidade aparente desse homem, se esconde um gênio. Mas um gênio que encontramos no início do filme em um momento difícil, de baixa, de dúvida. Até a vinda da Ida Rubinstein para sacudi-lo, provocá-lo no momento certo, e é isso que o leva a criar sua obra mais conhecida e também mais revolucionária.

Algo que me atrai na maneira como Ravel é retratado é que, embora estejamos no episódio da vida dele onde compõe sua maior obra, ele tem muitas frustrações artísticas. Não parece se realizar como artista. Acho que é uma questão interna para muitos artistas. Gostaria de saber como você lida com esse processo de maturação da sua própria carreira, do seu próprio trabalho artístico como ator. Se, como Ravel, há sempre uma insatisfação, uma vontade de oferecer algo revolucionário, ou se você está mais confortável diante dessa insegurança.

Depende do dia, mas… De toda forma, o que eu gosto nele, e talvez onde eu me reconheça, é que não é algo em que ele se autoflagela. Ravel não adota uma atitude de se desvalorizar. Acho que é uma forma de se reinventar a cada vez. Ou seja, nenhuma das obras de Ravel, por exemplo, se parece com a outra. Cada uma é como um novo desafio que ele se propõe. E nisso, acho que ele também se parece com a Anne Fontaine. A Anne Fontaine tem uma obra com 20 filmes, hoje. Nenhum é parecido com o outro. E mesmo assim, há sempre a personalidade da Anne Fontaine presente. Eu gosto dessa forma de não descansar sobre os louros e explorar permanentemente novos territórios. Muitas vezes, quando leio um roteiro, penso: já fiz algo parecido? Não. Conheço isso? Não. Ok. Então, esse vai ser o primeiro motor para me interessar. Na verdade, sempre desconfio da satisfação. Há uma frase do Louis Jouvet — olha eu fazendo citações novamente — interpretando um professor do conservatório no filme “Entrée des artistes” (obra de Marc Allégret, produzida em 1938), onde diz para um aluno: “Você está se instalando confortavelmente numa profissão onde não há conforto.” Nunca há conforto nessa profissão. E o dia que acharmos que há, é quando começamos a falhar um pouco. Mas, ainda assim, isso não quer dizer que precisamos viver em sofrimento, mas sim que não devemos nos contentar e que é preciso sempre buscar novos horizontes.

Para concluir, tenho feito essa pergunta para toda a delegação deste ano no Varilux. Quero saber se há um filme que as pessoas que vão assistir a “Bolero – A Melodia Eterna” também possam procurar, e que talvez tenha te inspirado no processo de composição do personagem. Você indicaria algum? Dentro da produção do cinema francês, existe um título que possa ter te inspirado ou fornecido algum material para criar seu personagem?

Eu me lembrei de um papel que meu amigo Gaspard Ulliel fez, que conheci num filme do Bertrand Tavernier, e ele interpretou Yves Saint Laurent. E havia algo parecido ali, acho, na postura, no dandismo do personagem. Não reassisti, mas me lembrei disso. Porque também não quero ser muito influenciado, mas… Sim, acho que havia algo nesse estilo. Esses dois personagens, mesmo que não comparáveis, talvez tenham algumas pontes entre eles.

“Bolero – A Melodia Eterna” está atualmente em exibição nos cinemas brasileiros, com distribuição da Mares Filmes.

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