Autor independente e verdadeiro cronista de vidas anônimas, Jim Jarmusch volta sempre que pode ao formato do compilado de pequenos contos, aos moldes daquele experimentado em “Uma Noite Sobre a Terra” (1991) e “Sobre Café e Cigarros” (2003). É onde se vê o diretor de 72 anos no seu modo de artesania mais modesto, sem firulas narrativas ou visuais.

É exatamente essa a proposta de seu mais recente “Father Mother Sister Brother”, onde teremos três pontos de parada dentro de três núcleos familiares distintos: a visita de Adam Driver e Mayim Bialik ao pai Tom Waits em algum lugar isolado dos Estados Unidos; a viagem das irmãs Cate Blanchett e Vicky Krieps à casa da mãe Charlotte Rampling em Dublin; e a última, a ida dos irmãos Luka Sabbat e Indya Moore ao apartamento em que viveram na infância em Paris.

Jarmusch faz uma série de rimas entre essas pequenas histórias como se fossem versões alternativas umas das outras. A primeira tem um resultado mais cômico, enquanto a última preserva um tom mais melancólico. Ainda assim, repetições de tradições (os brindes com bebidas inadequadas para esse propósito), as transações financeiras indevidas, os skatistas do mundo lá fora etc. reforçam que somos indivíduos iguais apenas separados por contextos geográficos, políticos e sociais.

Jim Jarmusch nunca tinha colocado um filme em competição no Festival de Veneza e saiu de lá com a honraria máxima dentro de um line-up em que os seus feitos em “Father Mother Sister Brother” foram os mais tímidos. Pode-se interpretar a honraria dada por Alexander Payne, um nome muito influenciado por seu cinema, como a celebração por uma carreira menos premiada do que se possa supor. Porém, essa distinção, que em estratégias mercadológicos aumenta as chances de “Father Mother Sister Brother” em termos financeiros e de alcance de audiência, dá ao filme um peso que ele não sustenta.

★★★
Direção de Jim Jarmusch
Assistido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo
Em breve nos cinemas (MUBI Brasil)

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