
O que acontece quando o bloqueio criativo de um artista colide frontalmente com a dura realidade econômica e a precarização do trabalho no mundo contemporâneo? Essa é a provocação central de “Mãos à Obra”, novo filme da diretora e roteirista francesa Valérie Donzelli, muito conhecida em nosso território por “A Guerra Está Declarada!”.
A partir de sua vinda ao Brasil a convite do Festival de Cinema Francês do Brasil 2025, Valérie concedeu entrevista para o Cine Resenhas para falar sobre a sua premiada adaptação do livro homônimo de Frank Courtès, laureado como Melhor Roteiro no último Festival de Veneza.
Na conversa, ela revela como sua própria crise pessoal a conectou profundamente com a história do protagonista, discute os dilemas éticos de usar a intimidade como matéria-prima para a ficção e compartilha seu carinho por Caetano Veloso e “Baby”, de Marcelo Caetano.
“Mãos à Obra” tem distribuição assegurada nos cinemas pela Bonfilm. Ainda não há previsão de lançamento.
Ao assistir “Mãos à Obra”, identifiquei muitas pautas sendo trabalhadas em seu roteiro, entre as quais a precarização do trabalho na Europa, a crise que invade artistas em sua sobrevivência em tempos de bloqueio criativo ou a experiência que estes deveriam ter diante do que compreendemos como uma vida mundana. Qual foi o tema que disparou aquele gatilho para você fazer esse filme?
Foi o conjunto de todos esses temas que se tornou importante para mim. Ao mesmo tempo, quis contar a dificuldade de criar, a radicalidade da escolha deste homem e a descoberta da uberização do trabalho, bem como as dificuldades de ser bem valorizado hoje em dia.
No fim das contas, a ideia do lucro está por toda parte: na indústria do cinema, na literatura… tudo tem que gerar receita. O trabalho foi atingido em cheio nessa loucura do capitalismo e do liberalismo econômico. Agora, o trabalho tem que ser ainda mais rentável e, por isso, eliminamos os relacionamentos humanos. Torna-se apenas uma plataforma que drena o dinheiro; ela não existe, é completamente virtual e explora um monte de trabalhadores.
O drama atravessado por Paul Marquet (protagonista vivido por Bastien Bouillon), o de não ter um próximo trabalho, é um que você teme atravessar em sua carreira?
Sim, com certeza. Quando quis adaptar o livro, eu mesma estava tentando escrever algo que não conseguia. Eu não tinha mais dinheiro e estava também em uma crise pessoal. Então, quando li o livro, disse a mim mesma: “Na verdade, é isso que eu quero adaptar”. O que eu conto no filme é um pouco mais a minha história do que a do Frank.

Algo exibido nessa história que também considero bastante provocador é essa questão do uso que artistas fazem de aspectos privados de suas vidas como materiais para as suas obras ficcionais. Assim como Paul Marquet, você também atravessa esse dilema de expor situações ou pessoas que talvez a desaprovem?
Acho que todos os cineastas contam coisas que falam sobre eles mesmos. Não se pode deixar a si mesmo de fora quando se faz um filme. Para mim, ou são coisas ligadas diretamente à minha vida, como no início da carreira, ou adaptações de livros que contam algo íntimo sobre mim. Está sempre ligado ao íntimo. É isso que me interessa no cinema: conseguir tocar as pessoas contando algo que dialogue com a intimidade delas.
Como você se sentiu ao receber o prêmio de Melhor Roteiro no último Festival de Veneza?
Fiquei extremamente lisonjeada e honrada pelo filme ter sido premiado e estar entre os vencedores, pois o júri era composto por grandes figuras do cinema. Também fiquei contente porque o prêmio recompensou o filme em um aspecto importante, que é a sua história. Como adaptei um livro e, ao mesmo tempo, o revisamos com Gilles Marchand, tudo isso formou praticamente um roteiro novo. Achei divertido ter recebido justamente o prêmio de melhor roteiro.
Como de costume, sempre pergunto para talentos internacionais alguma obra artística brasileira que tenham um apreço particular. Você tem um filme, um livro ou mesmo um disco que gosta muito produzido por nós?
O filme que vi mais recentemente é “Baby”, do diretor Marcelo Caetano. Achei magnífico. Eu o vi no Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz e nós inclusive o premiamos. Já um álbum que adoro é um do Caetano Veloso. (Neste momento, Valérie Donzelli se levanta e apanha o seu celular da bolsa, para fazer uma pesquisa no Spotify.) Tem uma música nesse álbum que eu gosto muito, “O Leãozinho”.
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