
O coletivo Porta dos Fundos já estava há algum tempo sem lançar um novo Especial de Natal. Alvo de muitas controvérsias em seus primeiros lançamentos, os especiais foram se tornando mais palatáveis para os cristãos curiosos, sobretudo porque os títulos mais recentes “Te Prego Lá Fora” e “O Espírito do Natal” pareciam muito mais interessados em testar técnicas ou gêneros (como a animação e o slasher) do que ser aquilo que críticos mais radicais categorizaram como blasfêmias.
“Stand Up e Anda”, o mais recente Especial de Natal, está pronto desde 2023. Após algumas discussões internas, o Porta dos Fundos definiu que o YouTube seria a melhor casa para o produto, que traz Fabio Porchat como o protagonista absoluto Jafé Julião, um comediante de 30 d.C. que prepara um show de stand up em uma praça pública.
Em sua quarta entrevista para o Cine Resenhas, Fabio Porchat comenta conosco sobre o desafio de adaptações de formatos, qual a interpretação que dá para a Bíblia Sagrada e até compartilha as suas primeiras impressões sobre as filmagens da cinebiografia de Bolsonaro, “Dark Horse”, protagonizada por Jim Caviezel.
Além da entrevista em texto na íntegra a seguir, você também pode acessar um trecho dela em vídeo e o próprio Especial de Natal (basta acessar a plataforma e confirmar a sua maioridade).
Cine Resenhas: Fabio, boa tarde. É um prazer falar contigo novamente. Tivemos a oportunidade de conversar em alguns especiais de Natal anteriores e é muito bom ver um novo projeto após essa janela. Acompanhando a coletiva, fiquei curioso sobre algo: você mencionou seu cronograma intenso, com viagens e vários projetos simultâneos. Artisticamente, existe alguma função ou formato que você ainda deseje experimentar, já que você já atuou como roteirista, apresentador de talk show, e trabalha em cinema, TV e plataformas online?
Fabio Porchat: Rádio! Rádio é um lugar onde eu nunca tive algo meu e tenho muito desejo de experimentar. É um meio que chega a muita gente. Curiosamente, estou com um projeto de rádio em Portugal e também quero desenvolver algo por aqui; tenho conversado, mas tudo ainda é muito incipiente. No rádio, as coisas precisam ser quentes, vivas, no “agora” e com disponibilidade. Além disso, teria curiosidade de fazer uma novela. Seria esquisito fazer um vilão, sabe? O problema é que o ritmo de novela é puxado: oito meses gravando sem poder fazer mais nada, o que dificulta o cronograma. Mas eu adoraria experimentar; gosto de testar as coisas, ir lá e fazer. Se der certo, ótimo; se não, volto para o que já faço. Há muita coisa a ser explorada.
Cine Resenhas: Sobre novelas, você chegou a fazer alguma participação especial? Acabei não encontrando esse detalhe na minha pesquisa.
Fabio Porchat: Fiz uma participação como eu mesmo, interpretando o apresentador do “Que História é Essa, Porchat?”. Foi na novela “Vai na Fé”, aquela em que o José Loreto fazia um personagem inspirado no Sidney Magal. Foi uma participação afetiva, então não conta exatamente como um papel de ator. Mas tenho interesse em outros formatos, como descobrir caminhos novos no podcast, tentar algo diferente e explorar formatos esquisitos. Tento sempre me embrenhar no que é novo.
Cine Resenhas: Entrando no especial, você explicou na coletiva como funcionou a gravação de um stand-up para o cinema. O projeto foi gravado em 2023 e teve um processo curioso: primeiro um take integral com a reação da plateia e depois planos mais fechados em você. Qual foi o maior desafio dessa tradução da linguagem do palco para a linguagem cinematográfica?
Fabio Porchat: Nesse sentido, o diretor Rodrigo Van Der Put foi fundamental. Ele sempre visualizou esse projeto para o cinema, saindo da estética comum do teatro. Assistimos a vários especiais de stand-up, desde os grandiosos até os minimalistas, para abrir a cabeça e entender como tornar aquilo cinematograficamente interessante. O fato de ser um especial de época ajuda muito; ele é visualmente mais bonito, com figurinos, animais e o cenário da prisão, que é muito forte. Isso muda o olhar e deixa tudo mais mágico. Além disso, por ser um personagem proferindo as piadas, a dinâmica muda. O Pedro Cardoso diz que o stand-up é em primeira pessoa, mas o personagem joga a fala para outro lugar. Não é o Fabio falando, é o Jafé Julião. E o Jafé pode ser qualquer coisa: um veterinário, um psicopata ou um maluco. O Van Der Put trouxe essa visão macro de caracterizar toda a plateia, o que faz toda a diferença. Durante os 50 minutos, eu me senti totalmente tomado por aquele espaço.
Cine Resenhas: Gostaria de perguntar sobre sua relação com a Bíblia Sagrada. Você se declara ateu ou agnóstico?
Fabio Porchat: Sou ateu.
Cine Resenhas: Como tem sido sua relação com a Bíblia nos últimos anos? Você a vê como ficção, ou consegue extrair reflexões para o seu cotidiano apesar do ateísmo?
Fabio Porchat: Para mim, a Bíblia é composta por relatos, parábolas e histórias escritas há milênios, que passaram por escolhas editoriais e perdas na tradução. Evidentemente, são histórias bonitas para entendermos como nossa vida se encaixa em certas morais. Assim como temos as fábulas de La Fontaine ou as histórias da Carochinha, a Bíblia tem parábolas que ensinam sobre respeito, tradição e a ideia de não sermos superiores aos outros. O amor e o “trate os outros como gostaria de ser tratado” estão lá.
Minha provocação é quando se lê a Bíblia literalmente, pois ela contém passagens terríveis que autorizam escravidão, incesto e assassinatos, se seguida ipsis litteris. Isso não me interessa. E me interessa menos ainda que a interpretação de alguém sobre a Bíblia interfira na minha vida. Se a sua crença te faz bem e não me prejudica, é maravilhoso. Se você acredita que uma garrafa d’água é sagrada e isso te ajuda, beba dessa água todos os dias. Quando alguém me diz “Deus te abençoe”, eu respondo “a todos nós”. Não acredito em Deus, mas recebo de bom grado o desejo positivo da pessoa. O grande perigo, a meu ver, é delegar a compreensão da Bíblia a um terceiro que vai te guiar sem que você tenha sua própria base.
É como o Waze: se eu chego em uma cidade desconhecida e ligo o aplicativo, não sei se ele está me levando pelo melhor caminho ou me colocando em uma zona de risco. Mas aqui no Rio, eu conheço os caminhos. Se o Waze sugere algo estranho, eu tenho base para questionar se houve um acidente ou se o caminho é realmente aquele. Com a religião é a mesma coisa: você precisa ter uma noção própria do que está ali para poder dialogar com teólogos e estudiosos sérios, como o Pastor Henrique Vieira, o Caio Fábio ou o Padre Júlio Lancellotti, que são pessoas que pensam e trocam ideias de verdade.
Cine Resenhas: Para encerrar, quais são suas impressões sobre o que tem sido divulgado de “Dark Horse”, o filme sobre Bolsonaro? Pelos takes que circularam, alguns chegaram a comparar com uma paródia do Porta dos Fundos.
Fabio Porchat: (Risos) Acho injusto julgar um filme por imagens de celular filmando o monitor da câmera. Um filme pronto tem trilha sonora, edição, locução e efeitos especiais. Se você filmar os bastidores de “Avatar” com um celular, verá apenas pessoas vestidas de verde em um fundo azul, o que também parece ridículo. Eu prefiro esperar o filme pronto; se for ridículo, aí sim eu vou sacanear com prazer, porque é uma delícia rir dessas situações. Mas, por enquanto, o que vimos são apenas imagens mambembes que não fazem justiça ao trabalho técnico ou ao ator, que pode estar entregando uma cena emocionante que só funciona no plano fechado da lente. Com certeza vou assistir e estou ansioso para ver o resultado.
Cine Resenhas: Maravilha, Fabio. Um prazer sempre falar contigo. Muito obrigado e sucesso com o novo especial!
Fabio Porchat: Amém! Obrigado, um abraço!
