
Ao mesmo tempo que Robert Altman estabeleceu, em início de carreira, algumas noções ainda seguidas de cinema independente americano, consolidando-se como um nome prestigiado o suficiente para cercar os seus dramas com um sem-número de grandes componentes dispostos a receber o mínimo somente para estar em seus filmes, não é novidade que as duas últimas décadas de sua carreira não foram das mais coerentes.
Ele alternou obras que reforçaram a sua titularidade de mestre (“O Jogador”, “Assassinato em Gosford Park”) com outras que soam quase como uma paródia de si, como “Até que a Morte nos Separe” e este “Dr. T e as Mulheres”.
Aqui não é necessariamente aquele filme-coral na linha de “Short Cuts”, pois Richard Gere é o grande protagonista. Ele vive um ginecologista com alta demanda de pacientes (muito por seu charme de galã) que revê a sua relação como marido, pai e profissional quando a sua mulher (feita por Farrah Fawcett) surta num shopping e é enfiada em uma casa de repouso para se recuperar do breakdown, cujo diagnóstico é de que ela é uma pessoa com a vida perfeita demais (!?).
É inacreditável que um diretor com a experiência de Altman tenha achado uma boa ideia a dramaturgia horrorosa de Anne Rapp, que em toda a carreira só conseguiu emplacar outro projeto com Altman (“A Fortuna de Cookie”) e que depois passou a sobreviver como supervisora de script de coisas como “Sex Tape” e “Besouro Verde”.
Pior: atraiu com ele um sem-número de atrizes, algumas tarimbadas, incorporando as caricaturas mais grosseiras possíveis, das filhas fúteis feitas por Kate Hudson e Tara Reid até a assistente assediadora interpretada por Shelley Long.
Para quem defende que um roteiro não passa de adorno quando cai nas mãos de um diretor autoral e experiente, isso daqui é um estudo de caso perfeito de desastre que sempre acontece quando alguém acredita no potencial de um texto bisonho desde a página 1. Não há talento que contorne isso.
★
Dr. T & the Women
Direção de Robert Altman
Assistido em DVD (NBO Filmes)
