Resenha Crítica | Hannibal: A Origem do Mal (2007)

Hannibal: A Origem do Mal

Quando um personagem é construído e logo adquire uma imediata popularidade, os planos de construir novas histórias para o mesmo indivíduo também são instantâneos. Não é somente no cinema contemporâneo que se cria certo fascínio em desvendar os primeiros passos de uma figura enigmática ou até mesmo o seu possível destino.

Em “O Exorcista 2 – O Herege”, tivemos a conclusão de uma batalha psicológica de Regan (Linda Blair) contra o espírito maligno de Pazuzu, iniciada sob uma ótica mais explícita por William Friedkin.

O mesmo poderoso demônio teve suas origens narradas em “Dominion: Prequel To The Exorcist” (produção ainda inédita em nosso país e que deve permanecer neste estado por um longo tempo) e na sua refilmagem dirigida por Renny Harlin, “O Exorcista – O Início”. O mesmo podemos dizer das três continuações de “Psicose” e do recente prequel “Hannibal – A Origem do Mal”.

Há dois caminhos opostos de avaliação para o quinto filme que “ressuscita” nosso canibal predileto. No negativo, vemos um filme desnecessário, que não alcança a potência das outras histórias de Hannibal Lecter e que cairá no fácil esquecimento.

Positivamente, Peter Webber (do espetacular “Moça com Brinco de Pérola”) cria cenários e personagens elegantes que combinam com a personalidade de Lecter, além do acerto ao selecionar o pouco conhecido Gaspard Ulliel, pois haveria descuidos se ele fosse interpretado por um ator celebrado. Assim, poderíamos aplicar o termo “ame ou odeie”.

Antes de ser corrompido pela crueldade, Hannibal vivia feliz com sua rica família, especialmente quando estava acompanhado por sua irmã mais nova, chamada Mischa (Helena Lia Tachovska). Ocorre uma inversão de temperamento quando são jogados em cena os horrores do Holocausto.

Ele tem que sobreviver sozinho com Mischa quando os seus pais são mortos em virtude de um acidente no meio da floresta em um inverno rigoroso. Durante dias, ambos ficaram hospedados às escondidas numa velha casa de madeira, até que são surpreendidos por um grupo de nazistas famintos, liderado por Grutas (Rhys Ifans).

Não tarda muito para transformar as indefesas crianças em aperitivo, mas somente Hannibal sai ileso do destino que o condenava. Anos depois, Hannibal já se encontrava seguro num orfanato, mesmo que insatisfeito com a situação em que estava.

Suas motivações malevolentes iniciam deste ponto, em que nada mais importa do que aniquilar a todos que foram responsáveis pela morte de Mischa. Ele não tinha ferramentas necessárias em mãos para detectá-los, mas as faces de seus futuros alvos sempre estiveram armazenadas em sua memória.

O desejo de vingança se torna ainda mais forte quando se refugia na mansão de sua tia Lady Murasaki (Gong Li, sempre perfeita), que será o apoio para o desenvolvimento de sua sofisticação e sabedoria. Existem erros em “Hannibal – A Origem do Mal” a partir do instante em que Murasaki transforma Hannibal em seu aprendiz, fazendo com que o despertar inicial de sua fúria seja caricato.

Ou mesmo no roteiro de Thomas Harris (autor de todos os livros do personagem), que insiste em recorrer a dispensáveis flashbacks que assombram sua criação. Porém, há também acertos, sendo alguns protagonizados pelo próprio Gaspard Ulliel. Se ele não consegue repetir a fisionomia marcante de Hopkins ao longo do filme, ao menos executa um trabalho digno de seu personagem.

Este começo seria evocado, cedo ou tarde, mas cumpriria seu papel perfeitamente se não estivesse relacionado com Hannibal Lecter, e sim a outra criação. Nada que torne “Hannibal – A Origem do Mal” o melhor passatempo dos últimos tempos ou uma das piores produções já concebidas. É bom vê-lo novamente, mas é fundamental que tudo acabe definitivamente por aqui.

★★★
Hannibal Rising
Direção de Peter Webber
Assistido nos cinemas (Imagem Filmes)
Texto originalmente publicado em 16/07/2007

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