
Em tempos em que voltamos a exaltar Andy Warhol como uma figura fascinante, com uma exposição em São Paulo e até o lançamento de um documentário em nosso circuito alternativo, é bom equilibrar os conceitos com um registro mais complexo de um episódio que redefiniu as suas trajetórias pessoais e artísticas: quando, em 1968, foi baleado pela feminista radical Valerie Solanas, quase perdendo a vida.
Andy Warhol foi mesmo um gênio e redefiniu os rumos das artes visuais, mas era também uma personalidade por vezes intragável e de uma misoginia inconsequente, que fez uma pessoa protagonizar uma ação desesperada em uma circunstância de vulnerabilidade emocional, pois a história também comprova que ele foi negligente com Edie Sedgwick, que morreu com apenas 28 anos após se desvincular da The Factory e de seu proprietário.
Por tudo isso, o grande acerto de Mary Harron (que entrega aqui o segundo melhor filme de sua carreira, estando atrás de “Psicopata Americano”) foi o de assumir uma cumplicidade com Valerie Solanas, uma mulher que, na época da realização desse drama, quase nada de documento biográfico deixou para trás além de seu livro “SCUM Manifesto”.
Lili Taylor é uma grande atriz e não é à toa que segue apontando Valerie Solanas como o melhor papel que já viveu no cinema, cruzando o caminho de Andy Warhol (Jared Harris, talvez na melhor encarnação ficcional do artista) enquanto luta para propagar as suas ideias, ao mesmo tempo extremas e revolucionárias, quanto aos papéis de mulheres e homens na sociedade.
Infelizmente, é um filme menos assistido e comentado do que o merecido e que ainda comprova o grande ator que Stephen Dorff poderia ter se tornado, aqui interpretando a transexual Candy Darling.
★★★★
I Shot Andy Warhol
Direção de Mary Harron
Assistido em VHS (Cannes Home Video)
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