O Festival Internacional de Cinema de Berlim contou com a exibição especial de O Testamento de Ann Lee — e sigo ainda atravessada pela experiência. Não é um filme que você “assiste” simplesmente. Você entra, ou resiste.
Ele começa quase te puxando pela mão, mas logo te coloca num estado estranho, entre o canto, o silêncio e uma sensação de que algo está sempre prestes a transbordar. Tem uma dimensão ritual ali, quase hipnótica.
Na coletiva, a diretora Mona Fastvold falou muito sobre isso: que não queria fazer uma biografia tradicional, que Ann Lee não cabia numa narrativa certinha, o que faz total sentido. O filme parece menos interessado em explicar quem ela foi e mais em nos fazer sentir o que era estar naquele corpo, fé e delírio coletivo. A cineasta comentou que o musical ali não é “performance”, é estado espiritual — e isso muda tudo.
Já Amanda Seyfried traz algo diferente do seu registro usual. Na fala dela durante a coletiva, deu para perceber o quanto o processo foi físico, quase exaustivo. Ela falou sobre cantar como extensão emocional, sobre não querer transformar Ann Lee numa santa, mas numa mulher cheia de conflito. Esta é uma atuação que não busca simpatia fácil. Ela sustenta a tensão o tempo inteiro.
Saí da sala com aquela sensação boa de filme que divide opiniões. Não é confortável, não é redondo, mas é vivo. E acompanhar a coletiva depois de ver o filme foi quase como ganhar uma camada extra — entender as intenções sem que isso reduza o mistério. Tem algo ali que continua ecoando. E talvez seja esse o maior mérito.
Texto produzido por Lilianna Bernartt, como parte de sua cobertura presencial no 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim.

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