A 76ª edição do Festival de Berlim encerrou entre controvérsias, tensões políticas e o cinema brasileiro em destaque e reconhecimento. A política em Berlim não é novidade — o festival construiu sua identidade justamente na tensão entre arte e mundo. Mas este ano a tensão deixou de ser atmosfera e virou pauta central.
As manifestações sobre Gaza, a fala equivocada de Wim Wenders defendendo uma suposta margem entre cinema e política, e a tentativa vacilante de “mea culpa” de Tricia Tuttle, diretora do Festival, na cerimônia de encerramento pós-silêncio durante todo o evento, criaram um estado de exposição. A instituição foi pressionada a se posicionar — e quando o fez, revelou ainda mais sua abstinência.
Nesse contexto, entra a premiação de Gelbe Briefe — um filme que fala sobre controle estatal, perseguição e a corrosão silenciosa da vida privada pela máquina burocrática e direcionada à arte — impossível de ser lida como coincidência estética. É um filme em que a política não aparece como discurso inflamado, mas como engrenagem dramática. A violência ali é institucional, estrutural, cotidiana. A escolha do júri foi uma resposta ao próprio debate que atravessava o festival: se não há política nos discursos oficiais, ela emerge na forma, como justificou Wim Wenders no encerramento.
E foi nesse cenário de ruído, silêncios estratégicos e abstenções que um outro movimento se destacou com nitidez: a presença fluida e consistente do cinema brasileiro. Sem histrionismo, sem precisar reivindicar espaço, o Brasil ocupou o festival com segurança de linguagem e maturidade estética. Foram 10 produções com participação brasileira, entre ficção, documentário, cinema juvenil, obras autorais, coproduções e mercado. Um desenho que não depende de um único eixo de legitimação.
Feito Pipa, de Allan Deberton, venceu as duas principais premiações da Mostra Generation Kplus: o Urso de Cristal de Melhor Filme, concedido pelo Júri Infantil, e o Grande Prêmio do Júri Internacional da Mostra. Além de ter sido um dos três finalistas no Teddy Awards. Mais do que uma vitória, há um reconhecimento de um cinema brasileiro voltado à infância que não simplifica conflitos, que trata identidade e afeto como matéria complexa.
Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha, de Janaína Marques, foi premiado no Fórum pelo júri de leitores do Tagesspiegel, reafirmando a potência de uma autoria íntima, arriscada, que aposta na memória como método narrativo. Já Narciso, coproduzido pela brasileira Júlia Murat, que foi premiado pela FIPRESCI na Mostra Panorama, insere o Brasil em um debate latino-americano mais amplo sobre memória política e repressão.
Outro destaque do Festival foi a circulação brasileira no mercado internacional. O diretor de fotografia Adolpho Veloso, indicado ao Oscar por Train Dreams, foi peça central em Queen at Sea, um dos títulos mais celebrados do festival, vencedor dos prêmios de direção e atuação coadjuvante. Ou seja, o olhar brasileiro estruturou visualmente um dos filmes mais discutidos da competição.
O mesmo pode ser dito da presença consolidada de Karim Aïnouz, figura recorrente na Berlinale, reafirmando o trânsito internacional do cinema brasileiro, e da estreia mundial de Josephine, de Beth de Araújo, que ampliou o mapa autoral feminino do Brasil no circuito europeu. E o Brasil se destacou não só no cinema, como também nas séries. A vitória da série Emergência 53 no Berlinale Series Market confirma algo decisivo: o audiovisual brasileiro não se limita ao longa-metragem, mas se expande com consistência para o mercado internacional.
A Berlinale 2026 será lembrada pelas controvérsias, sem dúvida. Mas também deve ser lida como um momento de consolidação. Enquanto o festival debatia seus próprios limites institucionais, o cinema brasileiro demonstrou autonomia e presença firme. Entre discursos hesitantes e manifestações contundentes, o Brasil apareceu com algo talvez mais poderoso: a segurança de quem sabe que sua linguagem não pede validação — simplesmente circula, conquista e permanece.
Texto produzido por Lilianna Bernartt, como parte de sua cobertura presencial no 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim.

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