Mesmo com a vida privada publicizada sem descanso pelos jornalismos de fofoca e de entretenimento, a morte de Whitney Houston segue como um acontecimento ainda não processado no imaginário coletivo.
Uma das vocalistas mais poderosas de seu tempo, Whitney nos deixou com apenas 48 anos após uma sucessão de turbulências familiares e a perda progressiva do seu instrumento de trabalho com o consumo de drogas.
A verdade é que a artista de Newark pode ser considerada também uma vítima fatal dos dilemas enfrentados quando se atinge a fama. A invasão de privacidade, a ganância alheia, o julgamento diário e outros aspectos penosos servem de moeda de troca para o reconhecimento mundial. É um modelo de trajetória que lamentavelmente atinge e nos tira inúmeros talentos precocemente, sobretudo mulheres.
Whitney Houston já havia recebido filmes ficcionais e documentais desde 2012. Entre os mais notórios, há o bom documentário de Kevin Macdonald de 2018 e o telefilme da Lifetime de 2015 dirigido por ninguém menos que a atriz Angela Bassett (quem o assistiu, não teceu elogios).
Agora, Kasi Lemmons é a escolhida para dirigir aquela que vem como a promessa de cinebiografia definitiva de uma geração, “I Wanna Dance with Somebody: A História de Whitney Houston”.
Com carreira iniciada como atriz, Kasi Lemmons apresentou excelentes interpretações em filmes como “O Silêncio dos Inocentes” e “O Mistério de Candyman”. Já como cineasta, teve um debute recepcionado com muito entusiasmo em “Amores Divididos”, de 1997.
Entretanto, excetuando “Fale Comigo”, drama pouco visto de 2007, jamais cumpriu com as altas expectativas advindas de seus primeiros passos. Não é a escolha adequada para dirigir este projeto, e o cenário piora com o roteiro de Anthony McCarten, dos contestáveis “O Destino de Uma Nação” e “Bohemian Rhapsody”.
A vida de Whitney Houston foi tão rica que seria quase impossível correspondê-la com uma dramaturgia de duas horas e meia. Assim, a escolha que “I Wanna Dance with Somebody: A História de Whitney Houston” faz é a da estrutura esquemática, na qual os rumos da Whitney ficcional são ditados pelos principais ápices da Whitney factual sem que exista qualquer naturalidade na encenação. Não temos aqui Whitney Houston, mas sim uma simulação dela.
Exemplos de articulações dramáticas para justificar episódios específicos não faltam. Quando se aproxima o momento em que Whitney protagonizará “O Guarda-Costas”, uma cena da própria assistindo a um filme aleatório na televisão é inserida para ilustrar o seu interesse por cinema.
Quando é sugerida uma regravação de “I Will Always Love You” para a trilha sonora do mesmo projeto, Whitney diz amar a original de Dolly Parton sem que tenha ouvido mais do que cinco segundos da canção.
É uma pena que o filme se limite a uma reprodução em vez de efetivamente trazer o espectador para dentro de sua história. Tal resultado é especialmente lamentável porque os envolvidos foram certeiros na escalação de Naomi Ackie.
A atriz britânica de 31 anos, que teve uma estreia arrebatadora em “Lady Macbeth”, se prova dona de uma técnica digna de veterana. Ela dubla 95% das cenas cantadas, obtendo resultados semelhantes aos de Angela Bassett quando esta deu vida à Tina Turner em 1993.
Ackie também corresponde a tudo o que se exige em outros contextos, como em seu relacionamento com Robyn Crawford (Nafessa Williams) e Bobby Brown (Ashton Sanders). Há também as interações com Clive Davis (Stanley Tucci), e é um alívio finalmente ver uma cinebiografia em que um produtor musical não tenha sido retratado apenas como um aproveitador.
Inclusive, há nas entrelinhas uma outra virtude infelizmente ofuscada pela condução, que é a de não transformar em sensacionalismo muitas das batalhas da cantora. Na reta final, Kasi Lemmons chega a exibir a banheira que marcou o fim de uma existência, mas há o bom senso em concluir a narrativa com uma recriação impecável daquela que é considerada a maior apresentação de Whitney.
Trata-se do American Music Awards de 1994, no qual performou um medley de “I Loves You, Porgy”, “And I Am Telling You I’m Not Going” e “I Have Nothing”. É uma energia quase sobrenatural da qual o filme se furtou de empregar nas duas horas anteriores ao epílogo.
Whitney Houston: I Wanna Dance With Somebody
Direção de Kasi Lemmons
Assistido nos cinemas (Sony Pictures)
Texto originalmente publicado em 14/01/2023

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