A iconografia do pop pode ser um alicerce poderoso para cineastas interessados na compreensão da intimidade de figuras públicas problemáticas e inseridas em um tabuleiro social no qual exercem influência.
Em “Vox Lux: O Preço da Fama”, que precisava de uma revisão geral urgente, Brady Corbet criou uma obra que cumpre a sua promessa de se comportar como o retrato de um jovem século. No longa, ele usa a figura de popstar interpretada por Natalie Portman, cuja legião de admiradores entra em comunhão ao mesmo tempo em que, fora de uma arena, todos estão sujeitos a ataques terroristas e massacres escolares.
David Lowery é outro cineasta eventualmente autoral fascinado por esse universo nada superficial e cheio de possibilidades estéticas. Grande parte de suas inspirações para “Mother Mary”, inclusive, surgiu enquanto assistia ao registro “Taylor Swift: Reputation Stadium Tour”, realizado oito anos atrás.
Mas o universo que Lowery quer explorar não é o lá de fora, mas sim o da artista Mother Mary (Anne Hathaway), que ostenta nos palcos looks marcados sobretudo por auras. Insatisfeita com os figurinos da turnê atual de comeback, ela corre para o refúgio da estilista Sam Anselm (Michaela Coel), com quem, logo descobrimos, estabeleceu uma parceria de longa data que foi rompida em péssimos termos.
Mary, uma Taylor Swift alternativa, sofreu um acidente ao vivo e está de volta aos palcos após um hiato sentido. Sam basicamente criou para ela a imagem que a consagrou no mercado e se reinventou desde que foi dispensada pela cantora, que decidiu seguir outros rumos estilísticos.
Em todo o projeto, temos o confinamento entre essas duas ex-amigas, cujas dores emocionais que carregam são ainda maiores pela sugestão de um romance nunca efetivado. No entanto, os embates verbais de uma mulher arrependida e de outra ressentida logo ganham o direito à perspectiva de uma delas para tudo se transformar em uma história de entidade possessora.
Apesar de o marketing ser todo voltado à natureza musical do filme, representada por canções escritas por Charli XCX, Jack Antonoff e FKA Twigs (esta última também presente no elenco), a tentativa é a de fazer realmente um drama intimista cheio desses floreios claramente criados no vazio e na penumbra de grandes galpões. A citada iconografia do pop está aqui sem saber exatamente ao que servir.
“Mother Mary” nada mais é do que um fantasma do rompimento indo assombrar aquela que provocou o trauma e nada mais do que isso. Para uma produção que chega a verbalizar o seu descontentamento por metáforas, ela não poderia ter se debruçado diante de uma executada da forma mais óbvia e tola possível.
Mother Mary
Direção de David Lowery
Indisponível no Brasil

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