Resenha Crítica | Acabe com Eles (2024)

“Acabe com Eles” é um modelo de filme que evidencia bem os prós e contras presentes em um trabalho evidentemente realizado por um diretor estreante no formato de longa-metragem.

Com três curtas-metragens no bolso e muitos créditos como operador de câmera no cinema e na televisão, Chris Andrews coloca em evidência o quanto esse projeto lhe é caro, com uma extensa pesquisa de campo que o faz compreender muito bem a dinâmica de uma vida rural.

Além do uso de um dialeto quase em extinção, todos os ambientes apropriados permitem que ele explore os melhores potenciais para a encenação, com tomadas ao mesmo tempo deslumbrantes e soturnas (estou certo de que, entre nomes contemporâneos, foi muito influenciado pelo que Debra Granik fez em “Inverno da Alma” e “Sem Rastros”).

No entanto, embora o seu roteiro seja ótimo ao dar ares shakespearianos na trágica rivalidade entre duas famílias, o fato dele estacionar os ápices dos acontecimentos para privilegiar a perspectiva do personagem de Barry Keoghan soa como uma evidência da dificuldade em se acomodar no modelo de uma narrativa mais longa do que estava habituado a construir em passos prévios em sua carreira.

Isso se dá porque nada do que nos mostra quanto a esse rapaz tem resultados além do óbvio. Ainda que o controle seja reassumido no ato final, fica o questionamento se a entrada de Keoghan (que substituiu o Paul Mescal) o obrigou a fazer ajustes na estrutura, pois Christopher Abbott estava segurando muito bem as pontas como um protagonista solo.

★★★
Direção de Christopher Andrews
Disponível na MUBI

Resenha Crítica | Conclave (2024)

Há 13 anos, o diretor Nanni Moretti havia nos dado uma boa ideia de como funcionam esses bastidores ultra secretos de eleição de um novo papa com a comédia “Habemus Papam”. Porém, embora a dúvida seja algo que impera os pensamentos de alguns personagens como testemunhamos com o protagonista daquele filme, aqui o caminho enveredado é o do thriller.

Ainda fresco de sua aclamação com o remake alemão de “Nada de Novo no Front”, Edward Berger faz bom uso daquele teor conspiracionista da literatura de Robert Harris (o mesmo de “O Escritor Fantasma”, que rendeu aquele filmaço do Polanski), tratando tudo como se fosse uma eleição política.

Embora a excelente recepção geral seja resultado da maneira afável com o qual tudo é tratado (há um humor sofisticado no flagra do ócio daqueles homens que é impagável), considero o primeiro terço do filme bastante problemático em engatar um ritmo.

Quando acontece o primeiro conclave, isso na altura dos 40 minutos de projeção, direção, roteiro e elenco movem com muito mais fluidez, tornando um procedimento tão solene em algo fascinante.

Os dois principais destaques do elenco, Ralph Fiennes e Isabella Rosselini (naquele papel pequeno em que cada segundo em cena é precioso) mereciam o Oscar, bem como Carlos Diehz merecia melhor sorte nas menções – o fato dele nem estar na composição que ganhou o último SAG é um ultraje!

★★★
Direção de Edward Berger
Disponível no Prime Video

Resenha Crítica | Entre Nós, O Amor (2024)

Mulher de 52 anos com um rebento, Serge, pós-adolescente, Nicole atravessa aquele que é o maior temor entre muitos adultos: receber o desprezo do mercado de trabalho, arruinando a possibilidade de vida estável para alguém que ainda está a alguns passos da velhice e de planos de aposentadoria.

Antes proprietária de um lar aconchegante e com bela vista para o seu jardim, hoje Nicole habita um apartamento periférico cercada de plantas de plástico e ratos que a visitam de surpresa. Pior: Serge a despreza e a culpa por todas as decisões ruins que tomou.

A princípio um mero drama sobre o relacionamento conturbado entre mãe e filho, “Entre Nós, O Amor” vai paulatinamente compreendendo que a fase amarga da protagonista é também uma consequência direta de decisões políticas que não a contemplam. Para que não seja uma leitura que fica somente na sugestão, o diretor e roteirista Morgan Simon faz questão colocá-la em discussão com a transmissão de uma declaração de Macron exibida na tevê.

Ainda que Nicole seja uma pessoa reativa às ofensas proliferadas por aqueles ao seu redor, há um excesso quando os conflitos verbais saem das dependências privadas para também acontecerem em ambientes púbicos com outros personagens (admito não ter compreendido o propósito da cena em que dois imigrantes falam coisas horríveis ao vê-la comemorar a virada do ano).

Mesmo com essa perseguição à Nicole, é bonito como o drama encontra alguns acalantos na figura de Lubna Azabal (a maravilhosa atriz de “Incêndios”), a primeira que estende a mão para a protagonista quando ela efetivamente atinge o fundo do poço. 

E de tanto se falar sobre Nicole, é inevitável não exaltar a interpretação de Valeria Bruni Tedeschi. Velha conhecida pelos cinéfilos, a atriz ainda assim surpreende com a melancolia e a luz que cercam essa mulher, certamente um reflexo da própria mãe de Morgan Simon, para quem dedica o seu filme. A cena de encerramento é particularmente emocionante.

★★★
Direção de Morgan Simon
Assistido no 1º Festival de Cinema Europeu Imovision e em breve nos cinemas (Imovision)

Resenha Crítica | Emmanuelle (2024)

De certo modo, é inegável a curiosidade que cerca uma modernização de “Emmanuelle” pelas mãos de Audrey Diwan, fresquinha de seu Leão de Ouro no Festival de Veneza com “O Acontecimento”, embora seja um filme superestimado e uma adaptação com escolhas equivocadas.

Pois a realizadora francesa faz questão de frustrar todas as expectativas, do desavisado que quer aliviar as tensões com um soft porn aos moldes daquele lançado nos anos 1970 até aquele que aguardava uma leitura feminista, na qual os desejos da protagonista não estão reféns de lentes masculinas.

Se em 1974 a Emmanuelle era uma modelo lançada por seu marido em Bangkok para uma série de aventuras sexuais com homens e mulheres, agora temos Noémie Merlant em Hong Kong para averiguar o controle de qualidade da unidade de uma rede de hotéis chiques usando as horas vagas para desbravar territórios misteriosos com aquele desespero de alguém com apetite sexual altíssimo em busca de um orgasmo.

A experiência aqui é pretensiosa até a medula. Temos de acompanhantes camufladas memorizando longos trechos de “O Morro dos Ventos Uivantes” até a Naomi Watts totalmente perdida e com direito a um monólogo constrangedoramente dramático a respeito de escolha de música ambiente (eu já estava gargalhando no segundo “ti, tati, tata” dela).

Há muito eu não assistia a um filme tão sem propósito quanto esse aqui, desses que causam mais perda de libido do que uma overdose de antidepressivos.


Direção de Audrey Diwan
Assistido no 1º Festival de Cinema Europeu Imovision e em breve nos cinemas (Imovision)

Resenha Crítica | Nas Terras Perdidas (2025)

O fato de o diretor inglês Paul W. S. Anderson estar na ativa ainda hoje é um milagre. Embora seja a engrenagem essencial no que se refere à possibilidade de se adaptar games para o cinema (“Mortal Kombat” é a primeira que deu certo e a franquia “Resident Evil” quadriplicou nas bilheterias o seu custo geral na casa dos 300 milhões de dólares), ele também amargou fracassos que o deixaram em maus lençóis por um tempo, sobretudo na dobradinha “O Enigma do Horizonte” e “O Soldado do Futuro”, hoje exaltados como os seus melhores filmes.

Embora seja um diretor que sempre procurou acompanhar o avanço da tecnologia para a arquitetura de universos fantásticos (foi o primeiro a se consultar com James Cameron para empregar as mesmas câmeras 3D de “Avatar” em “Resident Evil 4: Recomeço”), hoje ele parece preso naquilo que víamos há 20 anos lançado direto em DVD.

Apesar da expectativa em vê-lo trabalhando um texto de George R.R. Martin (o criador de “Game of Thrones”), o fato de priorizar os efeitos elaborados em computação gráfica aproxima o seu “Nas Terras Perdidas” mais de “A Era da Escuridão”/”Mutant Chronicles” do que de “Mad Max” ou “Duna”, ao mesmo tempo engajando por esse apreço e afastando diante de sequências que não passam de borrões digitais.

Além do mais, a falta de continuidade para estabelecer alguma coerência na evolução dos eventos segue sendo o maior pecado de Paul W.S. Anderson. Onde os protagonistas conseguem aqueles cavalos, mesmo depois dos cabos do ônibus bondinho serem cortados? Pra quê estabelecer aquela conexão entre Boyce (Dave Bautista) e Mara (Deirdre Mullins) se a importância da segunda vai se dissipar na velocidade de um estalar de dedos?

A premissa é bem bacana, ambientada em um futuro pós-apocalíptico pautado por regras da Idade Média, mas faltou um interesse em compreender os personagens além do seu potencial em se transformar em bonequinhos de alguma rede de fast food. Excetuando a presença de Arly Jover, atriz espanhola que vive uma liderança que conspira contra o Trono, o restante fica a dever.

★★
Direção de Paul W.S. Anderson
Em exibição nos cinemas (Diamond Films Brasil)

As Aventuras de uma Francesa na Coreia (2024)

Com a média de entrega de um filme por ano, o diretor sul-coreano de 64 anos Hong Sang-soo hoje atingiu um patamar de conjunto de obra com autoria reconhecida o suficiente para se amar ou deixar para lá. E isso se aplica até mesmo em suas aventuras com a musa francesa Isabelle Huppert, que agora somam três parcerias.

O resultado de “As Aventuras de uma Francesa na Coreia” não é tão aborrecido quanto o de “A Visitante Francesa”, mas a objetividade e até os poucos lampejos de novos ares oferecidos em “A Câmera de Claire” não são reprisados aqui.

Por um lado, existe algum encanto nessa crônica ao longo de um dia onde Huppert se passa por uma professora particular de idiomas a partir de uma metodologia bastante particular, onde interações em outro idioma com os personagens se dão a partir da descrição de seus sentimentos diante de ações banais.

Para a sua primeira aluna, ela pergunta que emoções a atingiram quando tocou piano. Para outra, uma mulher adulta, questiona o que passou pela sua cabeça ao ver o seu marido ajoelhar para um monumento.

São instantes que quebram o estereótipo de que a cultura asiática está a todo o momento em uma sintonia poética com tudo a todo o tempo. Infelizmente, “As Aventuras de uma Francesa na Coreia” não tem noções além desta para oferecer ao espectador que tenta se engajar na viagem dessa estrangeira.

Além do mais, causa incômodo esse desprendimento cada vez mais expressivo do Hong Sang-soo com o suporte digital. Além daqueles enquadramentos que vão se reajustando conforme a disponibilidade dos corpos no cenário, há também toda aquela fotografia estourada e foco desregulado que só agrada mesmo – e vai entender a razão – os seus fãs mais hardcore.

★★
Direção de Hong Sang-soo
Em exibição nos cinemas (Pandora Filmes)

Quando Chega o Outono (2024)

Enaltecer a versatilidade que François Ozon vem apresentando em uma carreira que já dura três décadas, além de sua gentileza em sempre enaltecer grandes atrizes veteranas do cinema europeu, é chover no molhado. Ainda assim, são virtudes muito especiais e que não passam batido em “Quando Chega o Outono”, onde volta a desenvolver uma história original com a sua autoria infalível e excelente direção de atores.

Entre a graça e a melancolia, o diretor desenvolve uma crônica misteriosa onde pais e filhos apontam os dedos uns para os outros como justificativa de suas vidas insatisfatórias ao mesmo tempo em que enxerga a possibilidade de formação de famílias perfeitas a partir de componentes que atravessam caminhos moralmente complicados – para não dizer outro adjetivo que possa fazer o espectador descortinar eventos e informações antes da hora.

Hélène Vincent e Josiane Balasko estão formidáveis como as melhores amigas idosas e solitárias que clamam pela presença de seus filhos em suas vidas pacatas e isoladas e Pierre Lottin (premiado em São Sebastião) é a peça fundamental para a virada de chave que experimentamos a partir do segundo ato.

No entanto, o grande destaque fica por conta de Ludivine Sagnier, com quem Ozon não trabalhava desde “Swimming Pool – À Beira da Piscina”, de 2003. Agora com 45 anos, a atriz nunca esteve tão bela e madura em cena e está comovente como a filha ingrata que só procura pela protagonista com propósitos financeiros.

★★★★
Direção de François Ozon
Em exibição nos cinemas (Pandora Filmes)

A Fria Luz do Dia (1990)

Estou em um processo de pesquisa sobre filmes baseados em assassinos em série para um futuro projeto e fiquei surpreso ao ser apresentado a este título ano passado, por meio do meu amigo Marcelo, craque em longas de gente perturbada. 

Não apenas desconhecia Dennis Nilsen (apelidado nos boletins policiais como O Assassino de Muswell Hill), como também me soou inusitado um projeto dessa natureza ser dirigido por uma mulher, Fhiona-Louise, em seu primeiro e único filme da carreira.

Aspas da própria realizadora são usadas no encerramento do filme, dedicando-o aos muito sensíveis para este mundo em que vivemos. No entanto, as suas intenções com o projeto são meio nebulosos, sobretudo por obter resultados que causam reações mistas.

Por um lado, é claramente um projeto de iniciante, que se apropria do impacto da história real para algo que desperta a curiosidade pública (embora esse filme siga desconhecido por sua circulação restrita). Fhiona privilegia os planos médios estáticos, muitas vezes flagrando os personagens de costas, o que denota duas coisas: ou falta de experiência para algo mais elaborado esteticamente ou o desejo de distanciamento de qualquer coisa que possa soar sensacionalista.

Diante dessa e de outras escolhas, acabamos perdendo boa parte do excelente trabalho de composição do ator Bob Flag, que interpreta o assassino onde pouquíssimos takes são capazes de exibir a sua face marcante com clareza – vale lembrar que o ator britânico estampa todos os cartazes do Grande Irmão em “1984”, do Michael Radford.

De qualquer modo, é também um filme cujas entrelinhas deixam muito bem a entender que o registro um tanto frio dos eventos é um reflexo de uma realidade onde figuras que vivem à margem podem desaparecer sem que as autoridades se importem: tendo assumido a morte de mais de uma dúzia de vítimas que eram, em sua maioria, homossexuais sem endereço, os crimes de Dennis Nilsen só foram descortinados, vejam só, por um problema hidráulico no edifício em que morava.

★★★
Direção de Fhiona-Louise
Assistido na Mostra Mestras do Macabro e indisponível no Brasil

Drop: Ameaça Anônima (2025)

A partir do momento em que deixou de supervisionar os roteiros das sequências de “Atividade Paranormal” (franquia na qual chegou a dirigir um spin-off, “Marcados Pelo Mal”), Christopher Landon tem se mostrado um ótimo aprendiz do suspense a partir de premissas absurdas antes acomodadas na comédia.

Mandou bem demais no primeiro “A Morte Te Dá Parabéns” com a história da protagonista que acorda no mesmo dia, além de ter brincado com a troca de corpos em “Freaky: No Corpo de um Assassino”.

Apesar da comicidade aqui e ali, “Drop: Ameaça Anônima” tem um conceito mais hitchcockiano, embora igualmente implausível, de confinar a ótima Meghann Fahy em um restaurante chique onde se verá obrigada a executar o seu date a partir de mensagens anônimas que recebe via AirDrop (ainda bem que sou usuário Android).

O cenário principal é deslumbrante e permite que Christopher Landon avance como diretor em termos de achados visuais, criando tomadas realmente fascinantes, do corredor em meia lua até o banheiro, que olhado de cima parece até um tambor de roleta russa.

Apesar de ser extremamente divertido, foi impossível não ficar pensando em “Voo Noturno”, sobretudo quando Landon começa a exagerar nas inverossimilhanças para sustentar o encontro até o fim. Quando chegou a décima vez em que a protagonista se levantou de sua cadeira distraída com as ameaças que recebe pelo celular, fiquei me perguntando como Wes Craven resolveria melhor a situação com base em seu filme que faz 20 anos de aniversário neste 2025.

“Drop” é um filme de 95 minutos que se beneficiaria muito mais se tivesse somente uns 80.

★★★
Direção de Christopher Landon
Em exibição nos cinemas (Universal Pictures)

A Garota da Agulha (2024)

A Garota da Agulha

“O mundo é um lugar horrível.”

O cineasta sueco Magnus von Horn havia há cinco anos criado um bom drama contemporâneo, “Sweat”, onde exibia a realidade superficial de digital influencers, trazendo uma protagonista que arquitetava uma vida perfeita e autoimagem impecável visando popularidade digital.

Agora, ele se apropria de uma figura real como coadjuvante de um drama (horror?) de época em que tudo transcorre no melhor modo “desgraça pouca é bobagem”, numa Copenhague de um século atrás afetada pela guerra.

A jovem atriz Vic Carmen Sonne já tinha provado que é muito corajosa ao assumir os riscos de “Holiday” e agora faz uma Anora onde a pior coisa que acontecerá em sua vida está longe de ser o anulamento de seu casamento com o herdeiro de uma fábrica de costura. Quem dera: a sua via-crucis passará pelo retorno do marido convertido em freak de circo, despejo, miséria, gravidez indesejada e por aí vai.

Definitivamente, “A Garota da Agulha” é muito desagradável e as pessoas tendem a apresentar os mais diversos julgamentos. De uma forma muito estranha, é um filme que sempre preserva uma promessa de respiro para a sua figura central, mesmo que a estética advinda da esplêndida fotografia de Michal Dymek (que também trabalhou em “A Verdadeira Dor”) assuma que não há cores neste mundo horrível de se viver.

★★★★★
Direção de Magnus von Horn
Disponível na MUBI