Péssima tradução, “O Crime que o Mundo Esqueceu” não apenas reflete em nada a premissa, como se esquiva da fina ironia de “Everybody Wins” – “todo mundo sai ganhando”, texto do dramaturgo Arthur Miller que o próprio tratou de adaptar para cinema.
Em determinado ponto do filme, o detetive particular de Nick Nolte, um sujeito meio estrelinha que gosta de aparecer em reportagens televisivas, se vê por demais envolvido em um caso em que um jovem rapaz foi preso pela morte de seu tio: ao vasculhar evidências e conhecer figuras muito suspeitas, desconfia que a penitência aparentemente equivocada esconde um ciclo de corrupção em Connecticut.
Grande atriz, Debra Winger não está em seus melhores dias no papel de uma mulher bipolar com passado nebuloso, sendo a principal responsável por atrair as atenções de Nick Nolte para salvar a vida de um inocente, que definha atrás das grades ao parar de comer.
Como esperado, esses dois protagonistas existem para firmar um relacionamento romântico implausível, desses em que você ouve um “eu te amo” em menos de 48 horas.
Na realidade, esse é um sintoma que contamina toda a encenação que Karel Reisz confere para o roteiro de Arthur Miller, onde tudo se pretende intenso demais sem qualquer plausibilidade. Tudo fora do tom para estabelecer o dilema: vale a pena mergulhar de cabeça em uma teia de conspirações para explodir todo um sistema ou a gente fica apenas na superfície para encontrar um meio-termo em que o bem-estar de figuras corruptas também significa a sobrevivência de inocentes desassistidos pela justiça?
Um fracasso comercial perdido nas filmografias de Nick Nolte e Debra Winger, que matou a carreira de Karel Reisz – o cineasta britânico de ascendência checa nunca mais faria outro filme até falecer 12 anos depois.
★★ Everybody Wins Direção de Karel Reisz Assistido em DVD (Spectra Nova)
Nos primeiros segundos de “A Manhã Seguinte”, Jane Fonda desperta visivelmente ressacada e desmemoriada quanto ao que aconteceu na noite anterior. Ao se mover para levantar de uma cama improvisada em um grande estúdio fotográfico, flagra um parceiro ao seu lado já sem vida e com uma faca cravada no peito.
Assim se estabelece um bom mistério para Sidney Lumet explorar, aonde vamos conhecendo aos poucos essa protagonista, a sua tentativa falha em remontar mentalmente se é vítima ou culpada por esse aparente homicídio e quais acontecimentos em sua vida privada a levaram a chegar a esse fundo do poço no qual o vício em álcool a fez perder o mínimo do autocontrole.
Porém, existe uma grande quebra de expectativa quanto ao rumo tomado com o roteiro de James Cresson, também autor de outro bom thriller, “Sem Defesa” (dirigido em 1991 por Martin Campbell): a gente ligará inevitavelmente os pontos diante do que realmente rolou naquela noite deletada involuntariamente por Jane Fonda, mas primeiro entenderemos como essa mulher, que se descortina como uma atriz em declínio, pauta os seus dias onde a principal prioridade é encher a cara.
Distinções à parte, lembra um pouco o que vimos mais contemporaneamente em “A Garota no Trem”, que ao fim também traz uma mulher vulnerável com seus passos forjados por um terceiro que se beneficiou de seu vício para ocultar um crime. No entanto, ao contrário do romance da Paula Hawkins, que até rendeu uma adaptação razoável para cinema com Emily Blunt no papel da alcoólatra quase incorrigível, Sidney Lumet não consegue atar os últimos nós de forma orgânica, embora o clímax bobo seja parcialmente compensado pela boa atuação de Jane Fonda, que surpreendentemente foi indicada ao Oscar sem o filme emplacar outra indicação sequer em qualquer premiação de cinema que existia nos anos 1980, sequer o Globo de Ouro.
No fim das contas, prefiro o diretor totalmente entregue ao Supercine, como fez no delicioso “Tão Culpado Como o Pecado”.
★★★ Direção de Sidney Lumet Indisponível no Brasil
O diretor Peter Segal não costuma desapontar no humor. Aprendeu a domar a arte do besteirol com Jim Abrahams e os irmãos Zucker ao assumir, muito jovem, a direção do terceiro “Corra que a Polícia Vem Aí!”. Ele até surpreendeu ao demonstrar que a mais tola das comédias sempre melhora com doses corretas de sentimentalismo, o que transformou o seu “Como Se Fosse a Primeira Vez” na sua obra mais famosa e celebrada até hoje.
Após um excelente ato inicial, sentimos que a sua parceria inusitada com Jennifer Lopez em “Uma Nova Chance” foi um tremendo acerto, colocando a atriz, adepta das comédias românticas, em um registro diferente.
Ao viver uma vendedora supercompetente que não ascende profissionalmente por nunca ter tido a possibilidade de investir nos estudos, e que começa a dar a volta por cima quando é presenteada com um currículo falso, J-Lo protagoniza situações “pastelonas” bem engraçadas. É o caso de quando faz um favor como intérprete de mandarim ou quando bola uma apresentação de trabalho ao ar livre com uma revoada de pombas que não dá muito certo. A assistente asiática, toda inibida e fetichista, também rende algumas risadas.
O problema é que esses momentos isolados são apenas respiros no roteiro de Elaine Goldsmith-Thomas e Justin Zackham, dupla que transforma “Uma Nova Chance” em um dramalhão materno. O texto aborta (opa!) sem cerimônias a proposta inicial, muito mais leve e descontraída, para transformar tudo repentinamente em um filme totalmente diferente.
É uma pena, pois a reunião nas telas de Jennifer Lopez com a sua (ex) melhor amiga Leah Remini era um sonho antigo para muita gente, e a química que elas demonstram em cena é maravilhosa. Lamentável que a entrada de Vanessa Hudgens acabe por arruinar essa parceria tão especial.
Cinco anos antes de receber reconhecimento mundial com o sucesso de “Drive” (que, entre muitas conquistas, lhe rendeu o prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes), Nicolas Winding Refn viveu um pesadelo que se estendeu por três anos.
Celebrado em seu país por “Pusher”, Refn fez posteriormente “Medo X”, um thriller psicológico com roteiro de Hubert Selby Jr. (autor de “Réquiem para um Sonho”) e protagonizado por John Turturro e Deborah Kara Unger. À época deste “Gambler”, o dinamarquês apontou o filme como o seu melhor e mais ambicioso projeto, mas o resultado comercial foi tão catastrófico que o levou à falência.
O que acompanhamos no documentário é o temor de qualquer pessoa que decide dedicar a sua vida à arte: Refn e sua esposa chegam a depender do auxílio financeiro de sua filha recém-nascida para sobreviver, encontrando como única alternativa transformar “Pusher” em uma trilogia para pagar uma dívida bancária equivalente a um milhão de dólares (Refn chegou a financiar “Medo X” parcialmente do próprio bolso).
Nicolas Winding Refn não é uma unanimidade entre os cinéfilos. Sustentou uma personalidade petulante após “Drive”, mesmo que os seus projetos seguintes tenham sido, no mínimo, divisivos. Hoje, aos 55 anos, entrou em uma fase mais moderada, evitando a exposição de seu ego.
Isso contribui para que percebamos uma versão mais gentil e vulnerável de si mesmo no passado, reconquistando, neste documentário, certa credibilidade pela franqueza com que abriu a sua vida privada e persistiu em seu sonho de triunfar como diretor de cinema.
★★★ Direção de Phie Ambo Disponível na MUBI Brasil
Roteirista em filmes como “Um Amor Necessário” e de séries como “Dix pour cent”, Victor Rodenbach ensaiava há algum tempo a sua estreia como diretor em longa-metragem. Após os curtas “Stronger” (2011), “Petit bonhomme” (2013) e “Les aoûtiens” (2014), o seu momento de finalmente brilhar no formato, com um roteiro de sua própria autoria, chega com “Os Bastidores do Amor”, um dos destaques da programação do Festival de Cinema Francês do Brasil 2025.
Em entrevista concedida para o Cine Resenhas, o diretor reflete sobre alguns embates encenados em sua história, centralizados no na dupla profissional e amorosa formada por Henri (William Lebghil) e Nora (Vimala Pons) para assim observar as distinções entre a arte dos palcos e do cinema.
Após essa passagem pelo estival de Cinema Francês do Brasil 2025, “Os Bastidores do Amor” será lançado comercialmente pela Bonfilm. No entanto, ainda não há uma data prevista de estreia.
Victor, minha primeira pergunta é sobre sua trajetória como diretor. Você iniciou a carreira como curta-metragista, realizando filmes entre 2011 e 2014, e agora, pouco mais de dez anos depois, estreia na direção de longas. Como foi esse processo de transição do curta para o longa-metragem?
Ao sair da escola de cinema, fiz curtas-metragens e comecei a trabalhar como roteirista. Durante todo esse tempo, ganhei experiência escrevendo histórias para outros, o que me permitiu precisar meu desejo de direção. Fiz do roteiro o meu ofício de artesão e levei tempo para deixar nascer um verdadeiro desejo de mise-en-scène, para que isso se tornasse algo excepcional na minha vida.
Gostaria de saber sua percepção sobre a relação entre cinema e teatro. No filme, elas parecem duas artes em conflito. O protagonista, vindo do teatro, parece se ‘vender’ ao ir para o cinema, como se isso fosse um crime contra a expressão artística. Essa foi a interpretação que tive.
O cinema é a minha vida e sou apaixonado pelo teatro; são dois mundos que amo sinceramente. Minha ambição no filme era que isso fosse sentido com igualdade, que a obra demonstrasse o mesmo amor por ambos os universos. Na realidade, são mundos vizinhos; alguns profissionais têm um pé em cada um, mas eles também se observam com desejo, com vontade e, às vezes, com um pouco de ciúme. Com certeza, isso me divertia e me interessava brincar com essa dinâmica.
Durante entrevista com Victor Rodenbach (Foto de Felipe Teixeira – Agência Febre)
Ainda sobre esse tema: no Brasil, vivemos um cenário pós-pandêmico onde os teatros continuam cheios, às vezes lotados, enquanto o cinema enfrenta queda de público e desinteresse, especialmente em relação à produção nacional. Qual é a sua perspectiva sobre isso na França? O cenário pós-pandemia é semelhante, com teatros lotados e cinemas vazios para os filmes franceses?
O cinema na França sofreu com a pandemia, sem dúvida. Os números de bilheteria não são mais os mesmos de antes, enquanto o teatro talvez tenha continuado mais vivaz. De qualquer forma, acredito que são dois mundos que enfrentam dificuldades comuns hoje, especialmente em termos de financiamento público e acesso a recursos, dos quais dependem para sobreviver. Existe um teatro público na França que é uma exceção cultural, assim como o cinema francês, e que hoje precisa lutar para continuar existindo. Há, sem dúvida, diferenças no impacto de público, mas, mais uma vez, são mundos vizinhos confrontados com desafios comuns.
Acredito que a experiência do teatro é mais difícil de substituir em casa. O encontro com atores no palco é algo que parou durante a pandemia, mas, assim que pudemos voltar, não conseguimos encontrar isso em outro lugar — seja nas plataformas de streaming ou em outras formas de ver filmes. O cinema, sem dúvida, sofreu mais com essa concorrência.
Para encerrar, uma pergunta que sempre faço a convidados de festivais internacionais: existe alguma obra brasileira pela qual você tenha um afeto especial? Pode ser um filme, um disco ou um livro pelo qual nutra um carinho particular.
Gosto muito do cinema de Kleber Mendonça Filho. O filme do Kleber que eu mais gostei foi “O Som ao Redor” (“Les Bruits de Recife”). E um músico brasileiro… Caetano Veloso.
O que acontece quando o bloqueio criativo de um artista colide frontalmente com a dura realidade econômica e a precarização do trabalho no mundo contemporâneo? Essa é a provocação central de “Mãos à Obra”, novo filme da diretora e roteirista francesa Valérie Donzelli, muito conhecida em nosso território por “A Guerra Está Declarada!”.
A partir de sua vinda ao Brasil a convite do Festival de Cinema Francês do Brasil 2025, Valérie concedeu entrevista para o Cine Resenhas para falar sobre a sua premiada adaptação do livro homônimo de Frank Courtès, laureado como Melhor Roteiro no último Festival de Veneza.
Na conversa, ela revela como sua própria crise pessoal a conectou profundamente com a história do protagonista, discute os dilemas éticos de usar a intimidade como matéria-prima para a ficção e compartilha seu carinho por Caetano Veloso e “Baby”, de Marcelo Caetano.
“Mãos à Obra” tem distribuição assegurada nos cinemas pela Bonfilm. Ainda não há previsão de lançamento.
Ao assistir “Mãos à Obra”, identifiquei muitas pautas sendo trabalhadas em seu roteiro, entre as quais a precarização do trabalho na Europa, a crise que invade artistas em sua sobrevivência em tempos de bloqueio criativo ou a experiência que estes deveriam ter diante do que compreendemos como uma vida mundana. Qual foi o tema que disparou aquele gatilho para você fazer esse filme?
Foi o conjunto de todos esses temas que se tornou importante para mim. Ao mesmo tempo, quis contar a dificuldade de criar, a radicalidade da escolha deste homem e a descoberta da uberização do trabalho, bem como as dificuldades de ser bem valorizado hoje em dia.
No fim das contas, a ideia do lucro está por toda parte: na indústria do cinema, na literatura… tudo tem que gerar receita. O trabalho foi atingido em cheio nessa loucura do capitalismo e do liberalismo econômico. Agora, o trabalho tem que ser ainda mais rentável e, por isso, eliminamos os relacionamentos humanos. Torna-se apenas uma plataforma que drena o dinheiro; ela não existe, é completamente virtual e explora um monte de trabalhadores.
O drama atravessado por Paul Marquet (protagonista vivido por Bastien Bouillon), o de não ter um próximo trabalho, é um que você teme atravessar em sua carreira?
Sim, com certeza. Quando quis adaptar o livro, eu mesma estava tentando escrever algo que não conseguia. Eu não tinha mais dinheiro e estava também em uma crise pessoal. Então, quando li o livro, disse a mim mesma: “Na verdade, é isso que eu quero adaptar”. O que eu conto no filme é um pouco mais a minha história do que a do Frank.
Durante entrevista com Valérie Donzelli (Foto de Felipe Teixeira – Agência Febre)
Algo exibido nessa história que também considero bastante provocador é essa questão do uso que artistas fazem de aspectos privados de suas vidas como materiais para as suas obras ficcionais. Assim como Paul Marquet, você também atravessa esse dilema de expor situações ou pessoas que talvez a desaprovem?
Acho que todos os cineastas contam coisas que falam sobre eles mesmos. Não se pode deixar a si mesmo de fora quando se faz um filme. Para mim, ou são coisas ligadas diretamente à minha vida, como no início da carreira, ou adaptações de livros que contam algo íntimo sobre mim. Está sempre ligado ao íntimo. É isso que me interessa no cinema: conseguir tocar as pessoas contando algo que dialogue com a intimidade delas.
Como você se sentiu ao receber o prêmio de Melhor Roteiro no último Festival de Veneza?
Fiquei extremamente lisonjeada e honrada pelo filme ter sido premiado e estar entre os vencedores, pois o júri era composto por grandes figuras do cinema. Também fiquei contente porque o prêmio recompensou o filme em um aspecto importante, que é a sua história. Como adaptei um livro e, ao mesmo tempo, o revisamos com Gilles Marchand, tudo isso formou praticamente um roteiro novo. Achei divertido ter recebido justamente o prêmio de melhor roteiro.
Como de costume, sempre pergunto para talentos internacionais alguma obra artística brasileira que tenham um apreço particular. Você tem um filme, um livro ou mesmo um disco que gosta muito produzido por nós?
O filme que vi mais recentemente é “Baby”, do diretor Marcelo Caetano. Achei magnífico. Eu o vi no Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz e nós inclusive o premiamos. Já um álbum que adoro é um do Caetano Veloso. (Neste momento, Valérie Donzelli se levanta e apanha o seu celular da bolsa, para fazer uma pesquisa no Spotify.) Tem uma música nesse álbum que eu gosto muito, “O Leãozinho”.
Em sua lista anual publicada originalmente na Vulture, John Waters revelou quais foram, para ele, os dez filmes mais importantes de 2025. Como de costume, a seleção reúne obras que resumem a predileção do diretor por obras autorais por vezes pouco vistas ou cercadas por recepções nada unânimes. Esta é a tradução para o português da publicação, que destaca títulos como “Eddington”, “Premonição 6: Laços de Sangue” e “Quando Chega o Outono”.
1. Eddington (Ari Aster) Meu filme favorito do ano é um conto desagradável, porém altamente divertido, tão exaustivo quanto a política atual, com personagens por quem ninguém conseguiria torcer. Ainda assim, é tão assustadoramente engraçado, tão confusamente casto e perverso, que você vai se sentir meio doido e supercult depois de assistir. Se você não gostar deste filme, eu te odeio.
2. Premonição 6: Laços de Sangue (Adam B. Stein, Zach Lipovsky) A melhor sequência da franquia cinematográfica mais legal de todas. Feroz, fragmentado e cheio de tantas surpresas assustadoras e retorcidas — este filme vai além do trash e entra em um novo reino de arte exploitation.
3. Trilogia de Oslo: Dreams, Love e Sex (Dag Johan Haugerud) Três filmes noruegueses excelentes, dirigidos pelo mais novo herdeiro do trono de Ingmar Bergman, explorando como todo amor e desejo homo e hétero são complicados, mas esperançosos, e no fundo muito parecidos. Os diálogos mais inteligentes sobre romance em muito, muito tempo.
4. Sirāt (Oliver Laxe) Sai da frente, “Mad Max”. Se apresse, “O Salário do Medo”. Esta nova e impressionante road trip cinematográfica rumo a uma festa rave nos desertos devastados pela guerra no Marrocos faz esses clássicos parecerem lerdos. Tragédia após tragédia, de intensidade indescritível, fazem deste roteiro a melhor aventura psicodélica “pra se sentir mal” já filmada. Vai explodir sua mente… [alerta de spoiler] literalmente.
5. Sauna (Mathias Broe) Como um “Trash” moderno de Andy Warhol, este primeiro longa sexy e bem atuado fala de um caso entre um gay sarado e estiloso que trabalha em uma sauna de Copenhague limpando glory holes e um homem trans que agora se identifica como gay. Cunilíngua torta — um novo território a considerar?
6. Room Temperature (Dennis Cooper, Zac Farley) Um filme poeticamente enigmático, propositalmente tedioso e terno, focado em uma família preparando sua casa no bairro para uma atração de terror de Halloween. Justo quando você começar a odiar o filme, de repente vai se pegar pensando — hã? Eu gostei. É estranho, perturbador e talvez… só talvez, ótimo.
7. Misericórdia (Alain Guiraudie) Um thriller impossivelmente perverso em que assassinato, incesto enrustido e a atração inadequada por um homem culpado colidem, deixando o público atônito com reviravoltas sexuais e um final maluquíssimo. Socorro! Este saiu totalmente dos trilhos!
8. Quando Chega o Outono (François Ozon) Um drama comovente (e quando você já me ouviu usar essa palavra?), sem julgamentos, sobre uma prostituta aposentada e seu filho gay, gentil mas cheio de raiva, que sai da prisão e a ensina que talvez matar seja a coisa certa a se fazer.
9. Jayne Mansfield, Minha Mãe (Mariska Hargitay) Um documentário de primeira linha que revela segredo após segredo sobre Jayne Mansfield e sua família, deixando você na ponta da cadeira e, possivelmente, às lágrimas.
10. The Empire (Bruno Dumont) Não sou fã de ficção científica, mas quando uma nave brutalista pousa no norte da França neste filme, caí de joelhos para adorar as divindades mutantes a bordo. Não percebi que o roteiro era para ser engraçado até ler o release depois da sessão. É engraçado. De certo modo. Não engraçado “haha”. Não engraçado “esquisito”. Mas engraçado “haha esquisito”, exatamente como o diretor.
O 16º Festival de Cinema Francês do Brasil, que acontece de 27 de novembro a 10 de dezembro em cinemas de todo o país, chega à nova edição reforçando sua vocação: aproximar o público brasileiro da diversidade, da tradição e da renovação do cinema produzido na França. Com uma programação que reúne estreias, sessões especiais, encontros com artistas e retrospectivas, o evento se consolida como um dos principais festivais internacionais do calendário nacional.
Além da robusta seleção de filmes, o festival recebe uma delegação artística francesa que participa de sessões comentadas e debates no Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador. Entre os convidados estão a atriz Isabelle Huppert, homenageada desta edição, as diretoras Valérie Donzelli e Fabienne Godet, os diretores Jean-Claude Barny e Victor Rodenbach, o ator e diretor Pierre Richard — que ganha uma retrospectiva especial — e os atores Bastien Bouillon e Salif Cissé.
A edição apresenta títulos inéditos que chegam ao Brasil com destaque em festivais internacionais, incluindo “Mãos à Obra” (“A pied d’œuvre”), de Valérie Donzelli, premiado em Veneza, e “O Segredo da Chef” (“Partir un jour”), que abriu o Festival de Cannes deste ano. O público também poderá conferir comédias, dramas, estreias e produções de novos talentos, reforçando a amplitude do cinema francês contemporâneo.
Entre as atrações especiais, Pierre Richard retorna à direção com “Sonho, Logo Existo” (“L’homme qui a Vu L’ours qui a Vu L’homme”) e será celebrado com exibições de clássicos como “A Cabra”, “O Brinquedo”, “Os Fugitivos” e “O Loiro, Alto e de Sapato Preto”. Já Isabelle Huppert abre o festival no Cine Odeon com “A Mulher Mais Rica do Mundo”, além de realizar atividades com o público e uma pré-estreia em Salvador.
A edição 2025 conta com patrocínio master de Varilux – EssilorLuxottica, e apoio de BNP Paribas, Edenred, Voltalia, Fairmont, Air France, Ministério da Cultura via Lei Rouanet e Prefeitura do Rio de Janeiro.
Serviço
16º Festival de Cinema Francês do Brasil Quando: 27 de novembro a 10 de dezembro de 2025 Onde: Cinemas de todo o Brasil Atrações: Mostras de filmes inéditos, retrospectivas, pré-estreias e sessões com convidados Convidados: Isabelle Huppert, Pierre Richard, Valérie Donzelli, Fabienne Godet, Jean-Claude Barny, Victor Rodenbach, Bastien Bouillon, Salif Cissé Mais informações:https://festivalcinefrances.com.br/
O 5º DH Fest – Festival de Cultura em Direitos Humanos chega a São Paulo de 25/11 a 2/12 trazendo uma programação intensa dedicada ao tema memória, terra e liberdade. Com entrada franca, o evento ocupa o Centro Cultural São Paulo, Cinemateca Brasileira, Galpão Cultural Elza Soares, Espaço Petrobras de Cinema, Reserva Cultural e também a plataforma CultSP Play, que disponibilizará parte dos filmes gratuitamente.
Realizado pelo Instituto Vladimir Herzog e pela Criatura Audiovisual, o festival marca também os 50 anos do assassinato de Vladimir Herzog, homenageado por meio de um ciclo especial de documentários sobre sua vida e legado.
Uma das grandes novidades desta edição é o Prêmio Marimbás, criado pela cartunista Laerte. O troféu reconhece personalidades ligadas à cultura e aos direitos humanos, nesta estreia, os homenageados são Sebastião Salgado (in memoriam) e Zezé Motta, que ainda apresenta um pocket show.
A programação inclui cinema, debates, shows, gastronomia e, pela primeira vez, uma peça teatral. O espetáculo musical “Cerrado!”, do Grupo Pano, indicado ao Prêmio Shell 2025, ganha apresentação especial no CCSP.
No sábado, 29/11, o Galpão Cultural Elza Soares recebe uma programação extensa: almoço da Cozinha Escola Dona Ilda (MST), debate sobre alimentação e luta pela terra, a festa Discopédia e um show especial de Leci Brandão, marcando seu retorno aos palcos.
O debate central do festival, “Memória, Terra e Liberdade”, reúne o pesquisador martinicano Malcom Ferdinand e a escritora e ativista guarani Geni Nunez para discutir as interseções entre colonialismo, meio ambiente e luta ancestral.
Mais de duas dezenas de produções audiovisuais compõem a mostra de filmes, incluindo obras inéditas de Aurélio Michiles, Evaldo Mocarzel, Joel Zito Araújo, Tainá Müller e uma nova série dirigida por Caru Alves de Souza. Estão na seleção filmes premiados, lançamentos aguardados e curtas que abordam questões indígenas, LGBTQIA+, socioambientais, violência, memória política e justiça.
A noite de abertura, no dia 25/11, exibe o longa “Alma Negra, do Quilombo ao Baile”, de Flavio Frederico, que retrata o movimento dos bailes black como espaços de resistência e afirmação da cultura negra.
Entre longas, curtas, debates e encontros, o DH Fest 2025 reafirma a importância da arte como ferramenta de memória, afeto, enfrentamento e liberdade, um convite para refletir sobre o país que somos e o que ainda podemos construir.
SERVIÇO – 5º DH Fest
25 de novembro a 2 de dezembro de 2025 Entrada gratuita Locais:
Centro Cultural São Paulo (CCSP) – salas Lima Barreto e Ademar Guerra
Cinemateca Brasileira
Galpão Cultural Elza Soares
Espaço Petrobras de Cinema
Reserva Cultural
Plataforma CultSP Play (online)
Abertura – 25/11, às 20h — Reserva Cultural Filme: “Alma Negra, do Quilombo ao Baile” (dir. Flavio Frederico)
Premiação Prêmio Marimbás – 2/12, às 20h — Espaço Petrobras de Cinema Homenageados: Sebastião Salgado (in memoriam) e Zezé Motta (com pocket show)
Diretora de “A Natureza das Coisas Invisíveis”, Rafaela Camelo recebe o principal prêmio do 33º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, o Coelho de Ouro de Melhor Longa-Metragem, Prêmio concedido pelo Júri de Longas, que também premiou o drama em Melhor Interpretação para Laura Brandão e Serena.
Formado pela multiartista Andrezza Czech, pelo ator João Pedro Mariano e pelo especialista em indústria cinematográfica Wiktor Morka, o júri justificou a escolha: “Trata-se de um filme que aborda temas profundos com leveza e sensibilidade, guiado pela potência de um olhar infantil que transforma dor em delicadeza. A narrativa convida o espectador a um território íntimo, onde silêncio e emoção falam mais que palavras. Cada gesto revela afeto, poesia e um modo de ver o mundo que resgata a capacidade de sentir como pela primeira vez“.
No filme, Glória tem 10 anos e passa as férias no hospital onde sua mãe trabalha como enfermeira. Lá ela conhece Sofia, uma menina que está convencida de que a piora na saúde da bisavó é causada pela internação no hospital. Unidas pelo desejo de sair dali, as crianças encontram conforto na companhia uma da outra. Quando a partida se torna inevitável, as meninas e suas mães seguem para um refúgio no interior de Goiás para passar os últimos dias de um verão inesquecível.
Com distribuição da Sessão Vitrine Petrobras, “A Natureza das Coisas Invisíveis” estreia comercialmente na próxima quinta-feira, 27 de novembro.