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Resenha Crítica | Os Homens Que Não Amavam As Mulheres (2009)

Uma das coisas mais tristes que podem acontecer é uma pessoa talentosa morrer muito antes de seu trabalho mais precioso chegar ao público. O jornalista sueco Stieg Larsson teria testemunhado o sucesso de sua Trilogia Millennium caso não tivesse uma vida de excessos, que resumia a um trabalho exaustivo, as ameaças de morte por atuar como ativista político, as poucas horas que reservava para dormir e o consumo exagerado de filtros de cigarros e alimentos nada nutritivos. Tudo isto o levou a sofrer um ataque cardíaco em novembro de 2004, momentos antes de entregar os manuscritos originais da Trilogia Millenium. Provavelmente, ficaria orgulhoso da excelente adaptação para cinema, iniciada com “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres”.

A obra de Niels Arden Oplev foi a única exibida nos cinemas brasileiros. Ao questionar a distribuidora Imagem Filmes quanto a demora do lançamento das sequências, tive como resposta que ainda não há uma previsão para a chegada de “A Menina Que Brincava Com Fogo” e “A Rainha do Castelo de Ar”, episódios já lançados com sucesso na Suécia e Estados Unidos. Uma pena todo esse atraso, pois “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” é o melhor thriller do ano passado e os episódios seguintes são ótimos.

Há dois personagens centrais em “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” e um deles, Mikael Blomkvist, é praticamente um auterego de Stieg Larsson. Assim como o personagem muito bem desempenhado por Michael Nyqvist, Stieg Larsson foi editor de uma revista que se dedicava a denunciar todas as mazelas de seu país (daí tantas ameaças de vida). Mikael é responsável pela Millenium e é obrigado a cumprir pena na prisão e pagar uma alta multa por difamação por denunciar um magnata envolvido com contrabando de armas sem provas suficientes. Mesmo que Mikael tenha a oportunidade de pedir uma revisão do caso, prefere se desligar temporariamente da Millenium nos seus meses de liberdade antes de ir à cadeia, deixando as responsabilidades da revista com a sua sócia e amante Erika Berger (Lena Endre).

Paralelamente, conhecemos finalmente Lisbeth Salander (Noomi Rapace), uma hacker claramente traumatizada por algum acontecimento no passado. A moça adota sempre um estilo punk, embora seja dona de uma beleza exótica inegável. Ela é contratada pela Milton Security e uma de suas responsabilidades será averiguar toda a vida de Mikael Blomkvist e encontrar as sujeiras ocultas. O que intriga e ao mesmo tempo fascina Lisbeth Salander é que Mikael jamais protagonizou alguma ação comprometedora. No mesmo instante, Lisbeth, cujo dinheiro é controlado desde que saiu de uma instituição de tratamento psicológico em Uppsala, tem o seu tutor trocado. Ele se apresenta na figura de Mils Bjurman (Peter Andersson), um homem sádico que estupra Lisbeth em todas as ocasiões em que ela precisa pedir uma quantia do seu próprio dinheiro.

Ambos os personagens finalmente se encontram quando Mikael mergulha em um trabalho como investigador particular de Henrik (Sven-Bertil Taube), um ricaço idoso dono da Indústria Vanger, uma das mais bem-sucedidas de toda Suécia. O serviço consiste em desvendar o mistério que o perturba há quatro décadas. Sua adorada sobrinha Harriet Vanger (Julia Sporre) desapareceu quando ainda era jovem. Todos acreditam que ela esteja morta e Henrik afirma a Mikael que todos os anos, na data de aniversário de Harriet, ele recebe da pessoa que a assassinou uma flor emoldurada. Este ritual sempre se repetiu. Depois de tanto espionar o laptop de Mikael e todos os arquivos de sua investigação, Lisbeth não hesita ao dar uma dica que o direcionará Mikael para outro rumo.

A complexidade de “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” se vê em sua própria sinopse, que precisa de linhas e mais linhas para ser feita. Impressiona que o diretor Niels Arden Oplev, com devida menção aos roteiristas Nikolaj Arcel e Rasmus Heisterberg, tenha criado uma narrativa que consegue condensar em duas horas e meia uma história que foi desenvolvida por Stieg Larsson ao longo de seis centenas de páginas. O resultado visto supera todas as expectativas. A adaptação para cinema jamais deixa de respeitar o romance de Stieg Larsson enquanto descarta passagens muitas vezes desnecessárias imaginadas pelo escritor. Seguindo este raciocínio, é preciso destacar o trabalho extraordinário da atriz Noomi Rapace. Se Stieg Larsson às vezes errava ao desenhar alguns traços de sua heroína Lisbeth Salander, Noomi Rapace usufrui de todas as suas qualidades e evolui para a construção única de uma grande personagem. Lisbeth Salander é uma mulher que depende de muita dedicação para ser encarada por uma intérprete e Noomi tira o desafio de letra. A sua ausência como finalista na categoria de melhor atriz no Oscar 2011 é uma injustiça imperdoável, mas Noomi está colhendo os frutos de sua soberba caracterização, sendo solicitada rapidamente pelo cinema americano (ela está em “Sherlock Holmes 2” e Ridley Scott brigou com a Fox até conseguir incluí-la como protagonista de seu novo projeto de ficção científica, “Prometheus”).

Muitos estão confundido “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” com uma fita hollywoodiana banal pela dinâmica que Niels Arden Oplev impõe em sua realização, só que nenhum exemplar americano seria capaz de ir tão longe em cenas de violência contra a mulher e outras de tensão bem construída. Toda essa violência neste filme de mistério é reflexo da própria Suécia de hoje. Em uma das várias estatísticas que inspiraram Stieg Larsson a escrever a Trilogia Millenium, mais de 40% das mulheres que vivem na Suécia foram vítimas da violência executada por um homem. É apenas uma de várias discussões que “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” é capaz de suscitar. Pena que muita dessa relevância provavelmente se perderá com a inconveniente atualização já em pós-produção conduzida por David Fincher, um cineasta preocupado mais com a forma do que o conteúdo.

Título Original: Män som hatar kvinnor
Ano de Produção: 2009
Direção: Niels Arden Oplev
Roteiro: Nikolaj Arcel e Rasmus Heisterberg, baseado no romance de Stieg Larsson
Elenco: Michael Nyqvist, Noomi Rapace, Lena Endre, Sven-Bertil Taube, Peter Haber, Peter Andersson, Marika Lagercrantz, Ingvar Hirdwall, Björn Granath, Ewa Fröling, Michalis Koutsogiannakis, Annika Hallin, Tomas Köhler, Sofia Ledarp, David Dencik, Stefan Sauk, Gösta Bredefeldt, Gunnel Lindblom, Georgi Staykov, Nina Norén, Julia Sporre e Tehilla Blad

19 Comments

  1. Quase que eu comprava o DVD desse filme, nesta semana, mas acabei nem comprando. Quero muito conferir!!! Especialmente antes do remake do David Fincher estrear.

  2. “Muitos estão confundido “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” com uma fita hollywoodiana banal”

    Foi isso que eu achei, mesmo. Fora a forte caracterização de Rapace, nada o flme pareceu erguer-se acima da banalidade, especialmente na realização morna – e é aí que Fincher poderá elhorar bastante a premissa com sua versão. Se a reilmagem for suavizada, o que nas mãos de Fincher não parce provável, í sim será outra decepção.

  3. Quase peguei ele na locadora, mas não deu. Vou fazer isso com certa urgência e os livros parecem interessantes. ;)

  4. Acho que as distribuidoras estão atrasando o lançamento das duas sequências suecas justamente de olho nos remakes americanos, o que é uma pena. Excelente adaptação de uma trilogia literária explosiva (o segundo livro é o melhor dos três). E Noomi Rapace é a personificação ideal de Lisbeth Salander!

  5. […] Michael Nyqvist, já sendo judiado em seu primeiro papel hollywoodiano após o sucesso de “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres“) e a CIA conseguindo interceptar Nathan com a maior facilidade do mundo. Se Taylor Lautner […]

  6. […] 2010: Noomi Rapace, por “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres“ Em 2009: Melissa Leo, por “Rio Congelado” Em 2008: Belén Rueda, por “O Orfanato” Em […]

  7. […] Rooney Mara, que faz uma Lisbeth Salander inferior àquela incorporada por Noomi Rapace na versão sueca de “Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres”. Em tempo: das premiações […]

  8. […] Descendentes” | “Precisamos Falar Sobre o Kevin” Em 2011: “Incêndios“ Em 2010: “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres“ Em 2009: “Dúvida” Em 2008: “Desejo e Reparação” Em 2007: […]

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