Bruna Surfistinha

O cinema brasileiro aos poucos se dedica em resgatar figuras marcantes de nossa história para a produção de longa-metragens. Claro que nossa cinematografia sempre prestou suas homenagens, mas aguardava uma intensificação pós-retomada. Histórias como a do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do médium Francisco de Paula Cândido Xavier já ganharam as telas através dos diretores Fábio Barreto e Daniel Filho, respectivamente. Surpreende a escolha da biografia “O Doce Veneno do Escorpião: O Diário de Uma Garota de Programa” como alvo de uma adaptação cinematográfica, pois sua autora, Rachel Pacheco, não apenas se consagrou como garota de programa, mas também como blogueira e atriz pornô. Não falta público que encare um projeto como este com preconceito, mas, acima de tudo, é importante a relevância que “Bruna Surfistinha” exerce como exemplo notável de que há pessoas interessadas em retratar figuras que também integram a nossa sociedade e o quanto é importante fazê-lo sem julgamentos morais.

Não há dúvidas de que o realizador Marcos Baldini, oriundo da publicidade, enfrenta um grande desafio neste que é o seu primeiro filme. Mesmo com a inexperiência, Baldini mostra a que veio já nos instantes iniciais de “Bruna Surfistinha”, em uma complexa cena onde a jovem Raquel (Deborah Secco) realiza uma dança sensual diante de uma webcam com a música “Time Of The Season”, do “The Zombies”, de fundo. As cartas sobre sua vida são postas na mesa rapidamente. Filha adotada e aluna do ensino médio, Rachel abandona tudo e a todos para se tornar uma garota de programa. Ela é vítima de abuso por um colega de classe, se transformando posteriormente em chacota da escola, mas a decisão em se prostituir parece estar ligada ao seu desejo de independência.

A partir deste ponto, “Bruna Surfistinha” registra Rachel com seus clientes (que se dá em várias sequências de sexo, mas sem que nenhuma se mostre apelativa) e a vontade de compartilhar todas as experiências sexuais virtualmente, transformando-a radicalmente. Justamente neste instante onde o sucesso sobe a cabeça de Rachel que “Bruna Surfistinha” perde a força obtida até então. Na transição de garota de programa de luxo a garota de Vintão (a casa de prostituição mais decadente que existe) , bem como no destaque dado ao seu vício por substâncias químicas, a história não apenas caí em vários lugares-comuns como omite episódios cruciais da personagem real, como a sua passagem pela produção pornográfica brasileira. Mesmo com esses problemas narrativos levantados, “Bruna Surfistinha” é na maior parte do tempo uma realização feita com muita competência e que revela uma Deborah Secco surpreendente e bem distante dos habituais papéis globais.

Título Original: Bruna Surfistinha
Ano de Produção: 2011
Direção: Marcos Baldini
Roteiro: Antônia Pellegrino, Homero Olivetto e José de Carvalho, baseado no livro “O Doce Veneno do Escorpião: O Diário de Uma Garota de Programa”, de Raquel Pacheco
Elenco: Deborah Secco, Cássio Gabus Mendes, Drica Moraes, Fabiula Nascimento, Cristina Lago, Guta Ruiz, Clarisse Abujamra, Luciano Chirolli, Sérgio Guizé, Simone Iliescu, Érika Puga, Brenda Lígia, Gustavo Machado, Juliano Cazarré, Rodrigo Dorado, Roberto Audio, Plínio Soares, Sidney Rodrigues e Raquel Pacheco
Cotação: 3 Stars

Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

7 Comentários em Bruna Surfistinha

  1. O que eu mais gosto em “Bruna Surfistinha” é que seria fácil para o filme cair para um caminho apelativo, mas essa nunca foi a intenção do diretor. Ele optou por relatar uma visão realista da vida de Bruna.

    Agora, o que não dá para aceitar é a justificativa dada para a entrada de Bruna na vida de prostituição. Ser independente, todo mundo quer ser na vida, mas ninguém acaba vendendo seu corpo para conseguir isso. Eu acho que, no fundo, a Bruna só queria confirmar a imagem que as pessoas já tinham dela em seu subconsciente….

  2. Uma boa surpresa esse filme, gostei, acho q essa história baseada em fato real foi bem contada, a Deborah Seco está surpreendente e tem a melhor performance da carreira, bastante ousada e corajosa nas inúmeras cenas de sexo e nudez. Valeu a pena conferir essa produção nacional!
    Abs! Diego!

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