Skip to content

Resenha Crítica | Paixão (2012)

Passion

Ao exibir “Paixão” para concorrer ao Leão de Ouro na última edição do Festival de Veneza, Brian De Palma talvez não esperasse pelas vaias desrespeitosas que receberia na coletiva de imprensa realizada após a exibição deste que é o seu retorno aos thrillers que o consagraram. Como defesa, De Palma usou o argumento de que os seus filmes têm histórias contadas mais pelos recursos visuais do que pelos diálogos, chegando à conclusão de que por isso as reações da crítica especializada são tão desaprovadoras no calor do momento.

Há verdade na declaração do cineasta norte-americano que atualmente vive na França. Assim como acontece com “Femme Fatale”, lançado há dez anos diante de aplausos e vaias e agora reavaliado pela audiência com um olhar mais clínico, talvez “Paixão” tenha os seus méritos apreciados com mais entusiasmo com uma revisão em um instante em que o modo de Brian De Palma narrar uma história esteja escasso diante de seus sucessores.

Em tempos em que os filmes mais populares de Brian De Palma são refilmados (além de “As Irmãs Diabólicas” e “Carrie – A Estranha”, há rumores sobre um novo “Scarface” que terá como base no filme homônimo de 1983), soa estranho o próprio cineasta dar sua versão para o roteiro do recente “Crime de Amor”, o canto do cisne do francês Alain Corneau produzido em 2010. Porém, como se espera, há muitas distinções nesse filme concebido para uma época em que há tantas refilmagens literais, que não se permitem a novas possibilidades diante de histórias consagradas.

Ambientada na Alemanha, a história de “Paixão” inicia com as discussões de ideias da poderosa Christine (Rachel McAdams) com a sua subordinada Isabelle (Noomi Rapace) ao avaliarem uma péssima campanha publicitária de um aparelho móvel da Panasonic. Na mesma noite em que se despede de Christine, Isabelle tem um lampejo de criatividade que resulta em uma ideia brilhante e bem-humorada que põe em prática com o auxílio da sua secretária Dani (Karoline Herfurth, de “Perfume – A História de um Assassino”). Porém, Christine, com a ambição de trabalhar em Nova York, toma créditos pelo trabalho, deixando Isabelle inconformada.

A partir daí, “Paixão” mergulha em um jogo de manipulações entre suas personagens. Do mesmo modo que Isabelle se deixe enganar pela falsa parceria colaborativa com Christine, Dani tem uma admiração por Isabelle que não é recíproca. Além do mais, há nesta teia de falsas aparências o inconsequente Dirk (Paul Anderson, de “Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras”), um homem que mantém um relacionamento com Christine e Isabelle ao mesmo tempo em que passa por problemas ao desviar dinheiro da organização em que elas trabalham. Quando a competitividade entre Christine e Isabelle fica definitivamente clara (“Sem punhalada pelas costas, são apenas negócios”), a sedução passa a ser a principal arma para uma derrubar a outra até que a consequência seja um crime.

Comparado ao original francês, “Paixão” não o iguala quanto à tensão que existia entre as personagens de Kristin Scott Thomas e Ludivine Sagnier, que refletia muito bem as armadilhas que aqueles que almejam sucesso no mundo corporativo estão sujeitos a cair. Por outro lado, as imagens de Brian De Palma são infinitamente mais poderosas que aquelas concebidas por Alain Corneau, substituindo os descartáveis flashbacks em preto e branco por um tom voyeurístico.

Em “Paixão”, há dois mundos que se confundem: a realidade amarga de Isabelle e seu inconsciente que a desorienta a partir do ponto em que recorre a uma medida drástica para penalizar Christine por sua traição. Braço direito do espanhol Pedro Almodóvar, o diretor de fotografia José Luis Alcaine dá indícios de qual mundo estamos explorando junto com Isabelle. Diante do desconhecido, ângulos diagonais e uma tonalidade azul com sombras de persianas criam uma atmosfera de mistério que remetem ao film noir. Cenários e locações não dizem muito, mas é interessante se atentar aos figurinos que cobrem Christine como uma mulher perfeita e apresentam Isabelle como uma profissional brilhante sempre ofuscada pelo ambiente inescrupuloso que atua através do uso de roupas sempre pretas.

Entretanto, o ápice do filme vem quando o Brian De Palma dos thrillers hitchcockianos se apresenta em plena forma, transformando um crime em uma verdadeira obra de arte. “Vestida Para Matar” é o longa-metragem com os elementos mais resgatados em “Paixão”. Percebam, por exemplo, como o tema composto pelo italiano Pino Donaggio para a conclusão de tirar o fôlego de “Paixão” é praticamente idêntico a “The Nightmare”, usado para a mesma ocasião em “Vestida Para Matar”.

Já o uso do split screen tem potencial para ser tanto o melhor momento do cinema neste ano quanto para a filmografia de Brian De Palma. Enquanto no quadro direito da tela temos a possível perspectiva de um indivíduo prestas a cometer um crime, no quadro esquerdo há o balé “Prelúdio à Tarde de um Fauno”, de Debussy, contemplado por Isabelle e a perfeita tradução para o mundo perturbador dos sonhos e o poder da sedução. Se não é perfeito, não faltam razões para se excitar com “Paixão”, que prova que um dos maiores manipuladores da linguagem visual no cinema está de volta com tudo. Que, desta vez, um novo hiato não se pronuncie.

Passion, 2012 | Dirigido por Brian De Palma | Roteiro de Brian De Palma, baseado no filme “Crime de Amor”, escrito por Alain Corneau e Natalie Carter | Elenco: Noomi Rapace, Rachel McAdams, Karoline Herfurth, Paul Anderson, Rainer Bock, Benjamin Sadler, Michael Rotschopf, Max Urlacher, Dominic Raacke e Tystan W. Putter | Distribuição: Playarte

5 Comments

  1. william haddad william haddad

    Brian de Palma um mestre hoje ontem um discípulo de Alfred Hitchcock, seus filmes valem à pena ser visto.

  2. Carlita Fogo Carlita Fogo

    Rachel McAdams mais uma vez conquista o espectador com seu talento e sua beleza!

    • Carlita, acredito que isso vem da escolha de trabalhar com os diretores certos. Ela amadureceu muito ao trabalhar recentemente com Woody Allen, Terence Malick e, claro, Brian De Palma.

Follow

Get every new post on this blog delivered to your Inbox.

Join other followers:

%d blogueiros gostam disto: