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Bate-papo com Leandra Leal, Jiddu Pinheiro e Ricardo Pretti, de “O Uivo da Gaita”

Elenco e Equipe de O Uivo da Gaita
A produtora Rita Toledo, o diretor de “O Rio nos Pertence” Ricardo Pretti, a atriz e produtora Leandra Leal e o ator Jiddu Pinheiro.

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Ao contrário dos filmes internacionais, as produções brasileiras estão protegidas do ineditismo promovido pela Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Embora exibido na mais recente edição do Festival do Rio, “O Uivo da Gata” esteve presente na programação da 37ª edição do evento.

Para promover o filme, os protagonistas Leandra Leal e Jiddu Pinheiro e a produtora Rita Toledo estiveram presentes após a primeira exibição de “O Uivo da Gaita” para responder as perguntas do público. Devido a ausência do diretor Bruno Safadi, Ricardo Pretti, que realizou “O Rio nos Pertence” e que colaborou na realização de “O Uivo da Gaita“, o substituiu para compartilhar algumas experiências da realização do projeto experimental.

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Sobre o processo de realização de “O Uivo da Gaita”.

Leandra Leal: Durante todo o tempo de filmagens, houve um longo processo de amadurecimento do Bruno Safadi, especialmente depois da filmagem. Existiram até mesmo outras versões do filme com mais diálogos, mas a escolha foi mesmo de radicalizar. Particularmente, penso que o filme está muito mais fiel a ele desse jeito. Foi uma descoberta, não somente uma questão de escolha. Quando você faz o filme, você vê uma coisa e quando você vê o filme que fez, vê outra.

Ricardo Pretti: Lembrando de algumas coisas que o Bruno falou, muitas vezes ele tem uma ideia em que entende o gesto como a eternidade. O gesto eterniza as emoções de certas ânsias humanas. Neste caso, é o amor, o desejo de amar, de encontrar alguém e viver esse amor. Para o Bruno, ficou cada vez mais claro que se ele fosse para as vias do cinema mudo, para o cinema que fosse mais puramente visual, de tentar cristalizar, aprofundar cada momento enquanto gesto, tudo ficaria mais denso, mais eterno.

Leandra Leal: Tem também a coisa de tentar se afastar do cotidiano e encaminhar tudo para algo mais artístico. O Bruno veio com essa ideia de não ficar com personagens tão cotidianos.

Jiddu Pinheiro: A palavra no cinema vem depois da imagem. Muitas vezes se você escolhe a palavra, você renuncia o caminho pela imagem. Na verdade, a afirmação da imagem é muitas vezes uma forma de poder potencializar o não dito. É também uma escolha para afirmar o discurso interno, pois ele ganha força desse modo.

O Uivo da Gaita

Sobre a Operação Sonia Silk.

Ricardo Pretti: A Operação Sonia Filk surgiu em aproximadamente três anos, veio de uma personagem (interpretada pela Helena Ignez) da Belair,  que é uma produtora dos anos 1970 que fez sete filmes em três meses. Filmes incríveis, que recomendo para quem não viu, como “Copacabana, Mon Amour”. Nós pegamos esse modelo de produção, que é o de fazer filmes com poucos recursos, de forma espontânea, de nos relacionarmos com essa tradição de um cinema que não está preocupado em fazer uma indústria. São filmes que vão contra a ideia de fazer uma indústria, mais declaradamente experimentais, de riscos, de descobertas, ver o que acontece quando você sai de um padrão de funcionamento.

Todo mundo que está nesses filmes entrou com esse espírito de formar um grupo bastante coeso, bastante imerso nesta necessidade e vontade de se deslocar um pouco do que já estão acostumados a entender enquanto profissão de cinema. Cinema como produção e também como sentido. O que faz a gente sentir, ou entender alguma coisa, ou perceber alguma coisa. Quando você cria certos mecanismos que deslocam isso, você passa a perceber as coisas de modo diferente. Isso é algo muito válido, pois de alguma forma no Brasil há muito a tradição sobre o que nós somos. Eu sou do cinema americano. Vi muito isso na minha infância, adolescência, mas ao longo dos anos eu estou descobrindo esse outro cinema. Esse é o cinema que me trouxe uma coisa que não estou acostumado, mas que fala comigo de modo mais íntimo, confessional. Uma troca de segredos.

É arriscado. São filmes que se propõem a quase serem invisíveis. Isso no mundo da publicidade, no mundo em que tudo quer aparecer, quer ser espetáculo, é sempre um gesto de risco de você quase se anular. No entanto, a gente acredita tanto nisso que pensamos “Vamos nessa, vamos acreditar nesta força da invisibilidade.” Isso para mim é cinema, como para o Bruno de muitas formas é. A Leandra maravilhosamente encabeçou não só como atriz, como também produtora junto com a Rita Toledo. Ela participou de todos os processos em conjunto. De argumento a roteiro, da produção, da filmagem até a finalização. Todo mundo participou de tudo isso ao mesmo tempo e em conjunto. Todos falando sobre coisas que sentiam um do outro, era uma coisa que invade a vida, o processo de criação de uma obra de arte. Se entrelaçam e formam as coisas mais humanas e mais profundas para a gente.

 

O Uivo da Gaita

Sobre a eliminação dos diálogos.

Leandra Leal: Os diálogos tinham mais informações sobre os personagens… Quem era essa pessoa, contextualizava ela mais neste mundo. A escolha foi tirar isso.

Jiddu Pinheiro: Tinha muitos dados sobre quem eram esses personagens, de onde eles vinham, o conflito deles, como eles se conheceram. Situavam eles nos lugares. De certa forma, essas informações estão com os personagens, pois nós os criamos a partir delas. Acho que é um convite para que as pessoas completem essas informações por si mesmas, é aberto. É com o espectador que o filme se completa.

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