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Resenha Crítica | O Pequeno Quinquin (2014)

O Pequeno Quinquin | P'tit Quinquin

P’tit Quinquin, de Bruno Dumont

.:: 38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Persistente na decisão de se envolver com histórias com um alto teor religioso, o francês Bruno Dumont não estava obtendo bons resultados. Excetuando “Fora de Satã” (exibido somente na 35ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo), “O Pecado de Hadewijch” foi um dos piores filmes em seu ano de lançamento e “Camille Claudel, 1915” deverá resistir ao tempo somente pela entrega corajosa de Juliette Binoche ao papel principal. “O Pequeno Quinquin” é a primeira empreitada de Dumont na televisão e a verdade é que a mudança de ares surte um efeito muito positivo em sua carreira, agora composta por oito títulos como diretor.

Dividido em quatro episódios, “O Pequeno Quinquin” foi apresentado como uma minissérie na França. As exibições garantiram uma audiência acima do esperado para o canal ARTE e as críticas foram bem entusiasmadas. Com as probabilidades muito baixas de um dia chegar ao Brasil, a Mostra fez muito bem em apresentar uma versão em longa-metragem de “O Pequeno Quinquin”. Os episódios se converteram em capítulos e, felizmente, o material não foi condensado para ser exibido na tela grande. Contendo quase três horas e meia de duração, “O Pequeno Quinquin” deverá ser assistido com aquela empolgação de um espectador de tevê que devora uma temporada de seu seriado favorito sem interrupções ao mesmo tempo em que se vê diante de um produto com qualidade cinematográfica.

Bem equilibrado, “O Pequeno Quinquin” faz uma mistura quase infalível entre humor e suspense. Interpretado pelo excelente Alane Delhaye, o personagem-título é um garotinho que aplica várias prendas como uma forma de abater o marasmo de se viver em uma cidade do interior. As coisas vão começar a ficar agitadas com uma série de assassinatos que ronda o local. Capitão da polícia com tiques faciais, Van der Weyden (Bernard Pruvost) e o seu parceiro Carpentier (Philippe Jore) estarão à frente das investigações.

O tom de escracho é muito forte nos primeiros momentos de “O Pequeno Quinquin”, incluindo partes dos corpos das vítimas sendo encontrados dentro de vacas e um velório que abusa sem cerimônia do humor negro. Ter um grupo de crianças testemunhando tudo de perto tornam as coisas mais engraçadas. Mas eis que a densidade se manifesta quando comprovamos que todos os personagens são isentos de pureza, inclusive Quinquin, que não perde uma chance de praticar o bullying contra os seus vizinhos negros e árabes.

Exaltar “O Pequeno Quinquin” como um “Twin Peaks” francês é inevitável. Assim como a produção televisiva criada por David Lynch e Mark Frost, Dumont criou tipos estranhos e dissimulados e os concentrou em uma cidadezinha que parece controlada por forças sobrenaturais. Porém, ao invés de uma red room que pode ser adentrada em um ponto específico de uma floresta, “O Pequeno Quinquin” tem o palco do primeiro assassinato envolto a uma atmosfera perturbadora, uma caverna com suásticas pichadas.

Com um capítulo derradeiro que volta a exibir o fascínio de Bruno Dumont por elementos religiosos, “O Pequeno Quinquin” também sugere que há um enraizamento muito forte da sociedade contemporânea em seu histórico mais desonroso de preconceitos e tragédias, como se vê através do comportamento violento injustificável contra os agentes em potencial de uma miscigenação. Eis o mal em essência cumprindo de modo exemplar a função de culpado pelos crimes que moldam “O Pequeno Quinquin”.

One Comment

  1. Parece ser bem legal! Acho que, no cinema, com os quatro episódios vistos de forma consecutiva, o longa ganha em continuidade.

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