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Resenha Crítica | Acima das Nuvens (2014)

Acima das Nuvens | Clouds of Sils Maria

Clouds of Sils Maria, de Olivier Assayas

.:: 38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Mesmo não sendo um grande cineasta, o francês Olivier Assayas é dono de um prestígio que o faz produzir os seus filmes com liberdade, como se vê em títulos como “Depois de Maio”, em que Assayas compartilha uma história que revela muitos elos com as suas experiências particulares da juventude. Em “Acima das Nuvens”, o diretor e roteirista se mostra ousado em uma observação perspicaz sobre as distinções que separam os meios de produção europeia e hollywoodiano.

É impossível não criar associações com “Irma Vep”, o melhor filme de Assayas. Nesta produção de 1996, a chinesa Maggie Cheung é contratada por um cineasta francês temperamental para estrelar a refilmagem de “Os Vampiros”, uma das primeiras produções de horror do cinema a ganhar notoriedade. Em “Acima das Nuvens”, é Juliette Binoche que vive dilemas com a proposta de estrelar a nova versão de uma peça que a alçou à fama.

Em viagem para discursar sobre um prêmio em homenagem a Wilhelm Melchior, Maria Enders (Juliette Binoche) recebe no meio do caminho a notícia de que ele faleceu. Junta de sua assistente Valentine (Kristen Stewart), Maria tenta processar e perda do artista que a revelou com a peça “Maloja Snake” em meio às dificuldades particulares, como um divórcio e as ofertas para voltar a interpretar. Eis que o luto é usado como pretexto para ressuscitar “Maloja Snake” pelas mãos do promissor Klaus (Lars Eidinger), que convida Maria, eternizada por incorporar a jovem Sigrid, para interpretar a antagonista Helena, uma mulher madura e amarga.

Típica estrelinha rebelde de Hollywood, Jo-Ann Ellis (Chloë Grace Moretz, ainda com dificuldades de lidar com papéis de uma complexidade que não corresponde ao seu talento limitado) é selecionada para viver Sigrid na releitura, o que frustra a vontade de Maria em participar de algo que seja tão bom quanto a versão original. Como todo bom drama metalinguístico, a narrativa recebe direcionamentos imprevisíveis.

Juliette Binoche, que passava por uma fase desapontadora após receber o prêmio de melhor atriz em Cannes por “Cópia Fiel“, é uma atriz que jamais entrega algo abaixo do extraordinário quando está envolvida em um projeto de qualidade. No entanto, é com Kristen Stewart que Binoche atinge os níveis mais altos. A sintonia entre as atrizes é implacável e os conflitos em viver uma Helena com uma identidade que destoa daquela que concebeu em seu íntimo são potencializados quando ambas contracenam juntas.

Mordaz ao reproduzir um verdadeiro embate entre gerações, “Acima das Nuvens” ainda toca em dois temas delicados em debates sobre os rumos que a produção comercial toma. Há um deboche em cima da linha de blockbusters estrelados por Jo-Ann Ellis, de uma precariedade intelectual que faz Maria Enders diminuir ainda mais a jovem intérprete. Outro ponto é como a idade provoca um efeito devastador em grandes talentos, como bem ilustra a cena em que todos os flashes de câmeras fotográficas são voltados unicamente para Jo-Ann Ellis quando ela e Maria saem de um encontro em um bar. Para Maria Enders, resta se dispor a um sistema artístico do qual não tem forças para se rebelar.

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