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Resenha Crítica | Carol (2015)

Carol

Carol, de Todd Haynes

A escritora Patricia Highsmith é dona de uma bibliografia recheada de thrillers sofisticados. É ela a criadora de Tom Ripley, personagem encarnado no cinema por cinco grandes intérpretes: Alain Delon (“O Sol por Testemunha”), Dennis Hopper (“O Amigo Americano”), Matt Damon (“O Talentoso Ripley”), John Malkovich (“O Retorno do Talentoso Ripley”) e Barry Pepper (“Ripley no Limite”).

Mesmo debutando com o romance que inspiraria Hitchcock a realizar “Pacto Sinistro”, Highsmith veio a seguir com “Carol”, estranho diante de uma retrospectiva de sua obra. Publicado em 1952 como “O Preço do Sal” sob o pseudônimo de Claire Morgan, o livro foi assumido por Highsmith somente em 1990, cinco anos antes de seu falecimento. Com “Carol”, Todd Haynes faz o seu primeiro longa-metragem em oito anos para continuar com um tema recorrente em sua filmografia: a descoberta da própria identidade.

Inebriada de delicadeza, a sua direção traz à tona a atração entre Carol Aird (Cate Blanchett) e Therese Belivet (Rooney Mara) a princípio com apenas algumas trocas de olhares, com todos aqueles planos e contraplanos que exaltam o cinema como uma arte especial em conferir a profundidade de um oceano a pequenos gestos, geralmente ignorados com a banalidade da existência humana. Carol é uma mulher madura e visivelmente entediada com o curso que leva a sua vida e Therese é a materialização de sua vivacidade perdida, bem como a da ingenuidade que lhe permitia se doar ao novo com intensidade.

O encontro entre essas duas mulheres acontece na loja em que Therese trabalha como atendente, havendo nele uma troca de cordialidades que aos poucos recebem contornos íntimos. Em evidência, há também a presença masculina como uma figura que reprime, que sufoca, que castra. Therese tem como companheiro Richard (Jake Lacy), um sujeito bem-intencionado, mas que não percebe que ela não deseja corresponder ao seu amor. Já Carol sabe que efetivar uma separação com Harge (Kyle Chandler) lhe trará consequências graves, como a de não acompanhar o crescimento de sua pequena filha, Rindy (papel revezado pelas gêmeas Sadie e Kk Heim).

Como o esperado, Todd Haynes cerca “Carol” com todas as virtudes esperadas de um bom drama/romance de época permeado por preconceitos, como bem fez em “Longe do Paraíso”. A adaptação do texto pelas mãos de Phyllis Nagy (do telefilme “Mrs. Harris”) consegue captar os costumes da Nova York de 1950, enquanto a fotografia de Edward Lachman, a direção de arte de Jesse Rosenthal e os figurinos de Sandy Powell são apenas algumas das peças que se encaixam com harmonia para reproduzir as ambientações pretendidas.

Porém, o choque físico entre duas personagens de classes sociais distintas traz consequências negativas ao filme. Para o momento em que se espera uma entrega justamente sem amarras, o que se tem é um sexo evidentemente ensaiado, pouco arrebatador. O mesmo pode ser dito da escolha em honrar a literatura de Patricia Highsmith com um suspense ingênuo, sem consequências. Resta após esses desdobramentos um ato final que volta a envolver ao rememorar as convenções daquele contexto que ainda ganha reflexo na contemporaneidade e o quão importante é desafiá-las para um amor pleno.

One Comment

  1. Paulo Ricardo Paulo Ricardo

    Ainda prefiro “Longe do Paraíso”(que tem semelhanças com esse filme).

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