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Resenha Crítica | O Regresso (2015)

O Regresso (The Revenant)

The Revenant, de Alejandro González Iñárritu

Alejandro González Iñárritu venceu nada menos que três estatuetas do Oscar por “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)”, nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original. Essa consagração artística também marcou uma ruptura do cineasta mexicano de 52 anos com temas que lhe eram caros, como a incomunicabilidade humana e as distinções sociais. Talvez fosse melhor ter se rendido novamente a eles em “O Regresso”, pois são só algumas das abordagens à parte em um roteiro ausente de substância.

Em adaptação parcial do romance homônimo de Michael Punke, “O Regresso” resgata a figura real Hugh Glass, geralmente associada a um mito. Na pele de Leonardo DiCaprio, Glass se vê envolvido ao lado de seu filho Hawk (Forrest Goodluck) em meio a um conflito para a caça de pele. De um lado, há os subordinados ao capitão Andrew Henry (Domhnall Gleeson). Do outro, a tribo de índios Arikara. Ao ver todos os homens de Henry sendo selvagemente massacrados, Glass age em sua defesa.

O problema está no mal estar que a presença de Hawk provoca, um sujeito de origem indígena com um passado obscuro. Os atritos são especialmente gerados por John Fitzgerald (Tom Hardy), que pode não ser tão leal a Henry quanto proclama e que logo se converterá em um grande pesadelo para Glass ao assumir uma postura que o atingirá intimamente.

O ponto em que os papéis de herói e inimigo são integralmente assumidos por Hugh Glass e John Fitzgerald é exatamente aquele em que “O Regresso” passa a evidenciar os seus limites. É ainda mais grave isso já ocorrer quando o segundo ato sequer se aproximou, expondo as fragilidades de um texto do qual Iñárritu e o seu parceiro Mark L. Smith são incapazes de contornar.

A cena em que Glass é quase morto por um urso recriado em CGI espanta pela brutalidade e a transparência como exibe cada um dos danos físicos provocados. A falha está em recorrer a esse choque, ao impacto visual que isso provoca, não como um recurso dramático e sim como uma muleta para permitir que “O Regresso” atinja algum progresso insistindo na tentativa de provocar uma forte impressão, algo que ficará intolerável quando um cantil com uma espiral desenhada pelo personagem vivido por Will Poulter retornar como um objeto que abrirá as portas para o clímax.

A decisão seria muito mais sensata caso fosse somente confiado a Emmanuel Lubezki a exploração desse território inóspito e selvagem, que usa grandes angulares que contornam cada entorno, obtendo um efeito quase circular. Quando a intenção é ir além das consequências de uma luta pela sobrevivência, que implica a interação entre desiguais e os testes dos próprios limites físicos e psicológicos, “O Regresso” não funciona.

É possível de fato perceber o empenho de Leonardo DiCaprio ao papel, especialmente com a dificuldade em encarar uma temperatura fria extrema e o diálogo em uma língua indígena na maior parte do tempo. No entanto, faltam camadas ao personagem, enfraquecido por um Tom Hardy novamente unidimensional como o seu “oponente” e os flashbacks e os devaneios poéticos que extrapolam as barreiras do pieguismo.

São fatores que preenchem a jornada de Glass com inverossimilhança, milagrosamente pulando estágios de uma recuperação definitivamente impossível estabelecidas as barreiras climáticas e o curso extremamente breve até o seu destino pretendido. Opaca-se assim a força de uma história real, que seria mais enriquecida se Iñárritu compreendesse mais as distinções e as particularidades dos inúmeros coletivos que exibe e menos os subterfúgios de um espetáculo nem sempre honesto em suas intenções.

31 Comments

  1. Cinéfila por Natureza Cinéfila por Natureza

    Estou bastante ansiosa para conferir “O Regresso” e adorei sua crítica. Achei bastante realista e honesta!

    • Kamila, com o lançamento do filme rolando nesta semana, fico no aguardo por sua crítica. Um beijo!

  2. Paulo Ricardo Paulo Ricardo

    Parabéns pela crítica.E vamos voltar aquele velho debate de DiCaprio e o Oscar.Não vejo a hora disso acabar…

    • Paulo, desta vez ele leva. Não que ele seja o melhor entre os finalistas, claro. Abraços!

  3. Marcos Marcos

    Piegas é o seu pedantismo.Soa pretensiosa demais sua análise dessa obra,prima em essencia por seu efeito sensorial,maravilhosa fotografia e composição fabulosa de artistas de tamanha relevância.Ora ,estamos ou não falando de um filme voltado ao grande público?Levar poesia visual e uma experiência sensorial tão intensa à multidão que espera a sim,piegas,explosão final,mais parece um desafio que outra coisa,uma aventura cinematográfica nos moldes da própria história.Será que o grande público ficará inerte como você?

    • Thiago Romeu Thiago Romeu

      Concordo Marcos. Achei o pedantismo do texto empobrecedor do debate, denunciou a alma orgulhosa e soberba deste crítico bastante obtuso.

    • Caros Marcos e Thiago, pedantismo porque a análise sobre o filme é negativa? Não estou de modo algum sendo pretensioso, pois não reduzo quem aprecia o filme a adjetivos como “alma orgulhosa e soberba”. Assim como qualquer espectador, tenho por direito expor as minhas impressões sobre o que vi, por menos lisonjeiras que elas sejam. E ratifico as razões de não gostar de “O Regresso”: não consigo me convencer da “jornada do herói” por ela soar inverossímil para algo que se pretende realista (há saltos absurdos diante da recomposição física de Hugh Glass) e ainda acredito que temas tão importantes como a incomunicabilidade entre tribos com culturas divergentes são encarados mais como muletas narrativas do que como elementos dramáticos válidos.

      E eu definitivamente não gosto da distinção/rotulação de públicos, principalmente por ser um cinéfilo aberto a todos os gêneros e cinematografias. Portanto, refaço a questão: será que “O Regresso” resistirá ao efeito do tempo? Vamos aguardar.

      Um abraço para ambos.

      • Natalia Pereira Natalia Pereira

        Alex, melhor crítica até agora sobre O Regresso!
        É inegável a qualidade da produção, da fotografia. Mas em resumo, a história é fraca.
        Não é um filme para o grande público de forma alguma. É um filme para amantes das artes cinematográficas, que vislumbram e entendem a produção por trás de personagens vazios e secos. Mas as 2:40 hs cansam qualquer um. Falta conteúdo, faltam explicações e falta carisma.
        Obrigada, Alex, por não me fazer sentir a ovelha negra.
        Tomara que o DiCaprio leve a estatueta…. assim quem sabe ele possa se soltar e volte a fazer atuações sem pretensões alguma… o que era muito mais natural e convidativo. Ele é um baita ator. Mas a sua perseguição ao Oscar está pesando demais em sua atuação.

        • Natalia, fico muito feliz por você de algum modo ter se identificado com os prós e contras levantados na análise. Além do mais, acredito que até mesmo outros grupos de público podem não vislumbrar algo por trás de personagens vazios e secos, pois, em minha opinião, eles realmente os são. Por fim, concordo em absoluto quanto ao Leonardo DiCaprio. Gosto muito do trabalho que ele tem feito nos últimos quatro anos, mas aqui o seu desempenho é por demais “quero Oscar!”.

          Um beijo.

  4. Leticia Leticia

    Pedante, arrogante e pretensiosa a crítica. O filme é denso, cruel. Sangrento e beli. Como a vida. Pura pretensão julgar, emitir opinião sobre o que o diretor compreende. O filme é amplo, trabalha com muitos conceitos: a força da natureza, a resiliência para sobreviver, a dureza e a crueza da dor, da perda. É preciso alma. Sangue nas veias e um pouco de dor da vida para mergulhar no filme e sentir junto com o diretor. Di Caprio está brilhante. A fotografia é belíssima. Como diz um trecho: enquanto é possível buscar fôlego, existe luta. Respire. O regresso, na minha visão nada tem a ver com o cantil, como diz na placa do índio morto: somos todos selvagens, regressamos , regredimos à barbárie. Sou toda emoção e dor depois do filme.
    Letícia Thorstenberg,

    • Cara Letícia, posso dizer que a réplica que desejo dar ao seu comentário é a mesma para esses postados pelo Marcos e Thiago Romeu. Concordo com você sobre os aspectos técnicos do filme, que são irrepreensíveis. No entanto, que serventia tem uma análise, ou mesmo uma mera opinião entre colegas em um bar, se ela não se propõe a colocar em debate o que você lê como “compreensão” de um diretor sobre os temas que aborda? As interações sobre cinema iniciam exatamente nesse ponto, e elas podem chegar a conclusões tanto positivas quanto negativas.

      Um abraço!

      • NidiaBrito NidiaBrito

        Nobre crítico de palavras honestas e verdadeiras, eu quem estou terrivelmente arrependida de não ter lido sua crítica “antes de perder o meu valioso tempo”, em plena sexta feira. Filme piegas e de muito mal gosto. Obrigado, na próxima não hesitarei em consultar sua página antes. Um abraço. Nídia Brito!
        São Paulo – SP
        19/02/2016 – Cine Prime Cidade Jardim.

        • Nídia, obrigado por prestigiar a análise. Seja sempre muito bem-vinda para acompanhar e comentar as nossas análises. Uma pena que o filme não tenha funcionado, não é mesmo?

          Um beijo.

    • Marcos Marcos

      O cantil,o amuleto com as garras,o índio morto e a própria muleta,são sim muletas narrativas,mas nada significam enquanto elementos substanciais pro entendimento do filme,como na poesia moderna,o sentido e a mensagem são superiores à métrica,belo comentário!

  5. H Menon Jr. H Menon Jr.

    Uma decepção completa… Na verdade o filme está mais para um Gladiador (a perda da mulher e do filho como combustível para uma improvável revanche) do que para uma saga americana. E outro detalhe que vem incomodando ultimamente… Parece que usar o slogan “baseado em fatos reais” virou um salvo-conduto para todo tipo de delitos contra a verossimilhança. Depois de tudo que passou nosso personagem, cair de um penhasco de 60 metros de altura em cima de um cavalo e sair ileso, gerou risos na platéia. De todos os filmes que concorrem ao Oscar que já assisti (The Martian, Trumbo e A Grande Aposta) este é, IMHO, o mais fraco embora tenha sido muito bem produzido. Mas devo reconhecer… Para quem prioriza o saco de pipocas, é uma grande diversão.

    • Agamenon, exatamente. Sim, estamos diante de uma obra de ficção que se inspira parcialmente em um episódio da vida de Hugh Glass, mas “O Regresso” é um filme tão preocupado com uma perspectiva “realista” para essa saga selvagem que é difícil comprar a “via crúcis” de seu personagem. Eu me desliguei em várias ocasiões da narrativa justamente pelo exagero em como o corpo e espírito de Glass são dilacerados e imediatamente recompostos.

  6. Janaina Janaina

    Não gostei do Filme embora tenha cido bem executado pelos atores… muita violência apelativa e ficção exacerbada para um filme que seria uma saga.

    • Olá, Janaina. A violência me parece adequada para o contexto da história, mas há mesmo outros pontos de excesso. Cumprimentos cinéfilos!

  7. Concordo com todos aspectos positivos e negativos da sua review. Tecnicamente, é impecável a fotografia do filme. Assim como o desempenho de Leonardo di Caprio está acima da média. Mas não me apeguei a narrativa. Achei o filme arrastado em vários momentos e a duração longa foi um dos problemas. Tom Hardy não é um ator de tantas camadas realmente, mas o que me incomodou foi a construção do personagem em si e não a atuação do ator. Fitzgerald é quase um vilão do Tarantino mas sem a construção devida. O roteiro declina para uma invencibilidade inquietante e incompreensível do personagem. Acredito que 12 indicações ao Oscar foi exagerado. Mas a Academia já se mostrou irrelevante, burocrática, incoerente e exagerada outras vezes.

    • Olá, Jhonata. Que bom concordarmos nos aspectos que moldam o filme, sejam eles positivos ou negativos. Não posso dizer que me desconectei da narrativa, mas fiquei furioso como muitos elementos pobres definem o seu progresso. E de fato, Fitzgerald não parece um grande personagem, mas apenas o rascunho de vilão movido por uma ganância que se encerra com muita superficialidade.

      Um abraço!

  8. Leandro Carvalho Leandro Carvalho

    Caro Alex… concordo com sua crítica sobre o filme. Fui ver o filme com certa expectativa, por ser do Iñarritú. Porém, o filme decepciona, talvez por ser recheado de clichês, do tipo: uma briga de facas ao final onde o mocinho obviamente irá vencer ! Claro, depois de ter apanhado muito e ter perdido sua arma durante a luta… Nossa, que ideia original ele teve !!! Tamanho clichê dos filmes de heróis, onde o bem vence o mal em uma luta final, eu sinceramente não esperava. Ademais, o roteiro é péssimo, com uma atuação do Di Caprio que, convenhamos, qualquer ator faria. Afinal, em boa parte do filme ele grita, sofre, atira e etc… Talvez o personagem tenha carecido de camadas, como já foi colocado aqui em outro comentário… E por fim, acho que o Alejandro Iñarritu fazia bons filmes quando os roteiros eram do Guillermo Arriaga. Ou seja, um bom filme na verdade é um bom roteiro. Bingo !

    • Leandro, digamos que “O Regresso” reprisa as bases da “jornada do herói” adicionando uma poética que definitivamente não funciona e casa com subterfúgios pouco honestos para que a narrativa possa prosseguir. Também não vejo muita autenticidade quanto ao confronto de facas entre os personagens, ainda que ele tenha funcionado comigo muito pelo acompanhamento musical de Ryuichi Sakamoto, que é um dos compositores mais notáveis que o cinema tem.

      Um abraço!

  9. Veronica Veronica

    Ai nossa, como existe gente que insiste em ser chata e fanboy de filmes ao não tolerar críticas negativas. Eu concordo com cada palavra que vc disse, o Glass tá mais pra Duro de Matar do que personagem de uma história baseada em fatos reais. Cenário belo, ursos bem feito, efeitos especiais ok. Fora isso, tendo sido indicado ao Oscar, esperava mais, não acho que ganhe.

    • Olá, Veronica. Agradeço a defesa e fico feliz que a análise tenha proporcionado esse compartilhamento de opiniões, sendo elas positivas e negativas. Quanto ao Oscar, considero “O Regresso” um dos concorrentes mais fracos – também não apreciei “A Grande Aposta”, o qual ainda não pude escrever a respeito.

      Um beijo!

  10. Marcos Marcos

    Difícil convencer que a inverosimilhança da historia não tenha sido notada pelos criadores da película. Mais do que desconstruir o mito com contornos de realidade é óbvio para mim que a intenção foi narrar a aventura com uma poesia visual levada ao limite técnico, poucas vezes observado.As inúmeras “falhas” apontadas em poucas resenhas parecem querer direcionar o espectador a um ponto irrelevante,certamente deixado de lado por seus realizadores. Estamos ou não tratando dos mesmos artistas que há um ano mostraram sua classe com o refinado e irrepreensível Birdman?Autores dessa categoria,que em pouco tempo nos brindam com uma obra “fantástica ” refrescante e distintas de suas produções anteriores, certamente conhecem seus objetivos! E sabem também que há, sim,distinções entre públicos de cinema e metas de mercado. Birdman e The Revenant vão na contramão um do outro,ao mesmo tempo que se complementam em todos os aspectos dentro da filmografia do diretor.Parece claro para mim!Às vezes torna-se preciso sair do quadrado,deixar de lado as palavras difíceis para permitir um olhar menos crítico e mais observador.O próprio Iñárritu, através de seu Riggan Thompson já antecipara sua resposta a essa classe de cinéfilos. E por último,se pudéssemos apostar, como amigos é claro,e sentados num belo bar noturno,eu poria todas minhas fichas na mesa.Sim,The Revenant resistirá ao efeito do tempo,com sobras.Abraço!

    • Marcos, embora não tenha gostado de “O Regresso”, eu mesmo fui às redes sociais defendê-lo de uma leva de críticas e comentários negativos sobre Iñárritu que me pareceu extremamente injusta. Na dita “crítica especializada”, cheguei a ler até mesmo que o diretor não sabe onde colocar a sua câmera, um comentário no mínimo risível. Ainda assim, não concordo com você ao categorizar de certo modo que é irrelevante as opiniões que não se enquadram no padrão da maioria que está exaltando o filme. Por fim, eu também posso estar tremendamente enganado quanto a “O Regresso” e ele se tornar ainda mais apreciado com o tempo. Estou até certo de que daqui a pouco ele será anunciado como o melhor filme pelo Oscar. Mas só mesmo a vinda de novas gerações para realmente comprovar se ele vai além dessa credencial.

      Um abraço.

  11. Marcos Marcos

    Abraço pra você, num embate sobre arte mais do que uma afirmação de opinião,o legal é a conclusão de que não há conclusão. valeu!

    • Olá, Abilene. Não compreendi a sua questão. Essa resenha foi originalmente publicada aqui mesmo.

      • Maria de Fátima Nunes Maria de Fátima Nunes

        acabei de assistir o fim e sinceramente esperava mais, concordo com as críticas , o filme e chato, monótono e sem um enredo consistente , não entendo muito de cinema, mas lendo os comentários traduzem o que senti ao terminar de assistir. ainda bem que assisti em casa, não paguei no cinema, pois se o tivesse feito e fosse possível queria meu dinheiro de volta kkk

        • Maria de Fátima Nunes Maria de Fátima Nunes

          parabéns Alex todos os seus comentários dão pertinentes

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