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Resenha Crítica | A Rainha do Deserto (2015)

A Rainha do Deserto (Queen of the Desert)

Queen of the Desert, de Werner Herzog

Gertrude Margaret Lowthian Bell, ou simplesmente Gertrude Bell, foi uma mulher que não permitiu que o comodismo de uma vida privilegiada lhe limitasse a alçar voos altos. Com um relacionamento muito próximo com o seu pai, Hugh Bell, por consequência da morte prematura de sua mãe, Mary Shield, Gertrude não tinha o desejo de seguir as convenções do matrimônio, ainda que tivesse amores verdadeiramente intensos. O seu desejo era conhecer o mundo, ampliado com os estudos de primeira qualidade, ainda que restritivos para uma jovem que desejava usufruir da liberdade.

Mais do que saciar os seus caprichos, Gertrude promoveu expedições que desafiaram a arqueologia no início do século passado. A aproximação com líderes e o registro escrito e fotográfico de destinos visitados a transformaram em um elemento essencial para a redefinição do Oriente Médio, que testemunhou a dissolução do Império Otomano após seis séculos como potência que se apropriar de tribos.

Seja na ficção (“Fitzcarraldo”, “Aguirre, a Cólera dos Deuses”), seja no documentário (“O Homem Urso”, “A Caverna dos Sonhos Esquecidos“), Werner Herzog parecia ser a escolha certa para levar Gertrude Bell aos cinemas com “A Rainha do Deserto”, uma espécie de versão de saias de “Lawrence da Arábia” – ainda que Bell seja considerado por muitos estudiosos uma figura ainda mais influente que T. E. Lawrence. Isso porque o cineasta alemão sabe como poucos transformar esse contato com a natureza, bem como a cultura afastada da civilização, em verdadeiras experiências cinematográficas.

Mesmo com essa distinção, uma apuração denuncia contra Herzog: a ausência de uma obra no qual apresente uma mulher como protagonista à altura de Gertrude Bell. Por isso mesmo, é desapontador o tratamento que ele confere a essa personagem interpretada por Nicole Kidman. A destreza, o pioneirismo e as demais virtudes pelas quais Bell é conhecida deram lugar a uma mulher que ocupa o seu tempo com lamúrias sobre relacionamentos não efetivados durante as desgastantes viagens com dromedários em meio a tempestade de areia do deserto.

Um tempo precioso é depositado na crença de que o gatilho que dispara Gertrude para o mundo é o diplomata Henry Cadogan, personagem ficcional interpretado por James Franco com um risível sotaque britânico. Hugh Bell (David Calder) não dá a sua benção para que ambos se casem, pois deseja que sua filha se relacione com partidos mais sofisticados. Uma fatalidade acontece e, três anos depois, Gertrude já é vista rumando para Amã. “Pela primeira vez, eu sei quem eu sou e o meu coração só pertence ao deserto”, vem a narração em off durante um close na face impecável de Nicole Kidman. Mais tarde, os atritos com um major casado, Charles Doughty-Wylie (Damian Lewis), se transformam em gentilezas, temperando o romance.

Com diários passionais e diálogos com xeiques com tensões que se dissipam em segundos, resta pouco espaço para as panorâmicas do diretor de fotografia Peter Zeitlinger terem uma função além da transição, do breve respiro de contemplação. Além do mais, “A Rainha do Deserto” não cumpre nem mesmo a intenção de se corresponder com “Lawrence da Arábia”, fazendo do encontro entre Gertrude Bell e T. E. Lawrence (Robert Pattinson) somente uma oportunidade para desmitificar a encarnação de Peter O’Toole. E o nosso desejo de ressuscitar David Lean para presentear Gertrude com uma aventura digna.

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