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Entrevista com Roberto Berliner, diretor de “Nise – O Coração da Loucura”

Documentarista de sucesso, Roberto Berliner deixou a desejar na sua estreia na ficção com a comédia “Julio Sumiu”, lançada há dois anos. Naquele período, no entanto, estava com uma carta na manga: “Nise: O Coração da Loucura”, rodado em 2012 e recebendo o circuito comercial somente hoje, 21 de abril.

Somando prêmios em festivais nacionais e internacionais, o drama acerta ao não se comportar como uma cinebiografia quadrada de Nise da Silveira, descartando a construção de uma linha do tempo com legendas explicativas e flashbacks para oferecer um recorte específico de seu trabalho. Essa escolha é um dos tópicos discutidos pelo cineasta na entrevista a seguir, cedida pela Agência Febre.

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Como surgiu a ideia de fazer um filme sobre a Nise? O que mais te encantou sobre a Nise?

A primeira vez que eu vi a Nise foi no Circo Voador, nos anos 80. Ela aparecia lá uma vez por mês, era “O Chá da Doutora”. O projeto do filme começou muito depois com os escritos do jornalista Bernardo Horta, colaborador da Nise e irmão do André Horta, que é o fotógrafo do filme e grande parceiro meu e da TvZero. Bernardo acompanhou a Dra. Nise de perto por anos. Ele fez parte do grupo de estudos C. G. Jung que acontecia na casa da Nise. Ele gostava de observá-la e anotava não só o que ela dizia sobre diversos assuntos, mas a maneira como se comportava, seus trejeitos, sua relação com as pessoas e com o animais. Foi através dessas anotações que eu conheci melhor a intimidade da Dra. Nise.

Ela é dessas pessoas que faz o mundo dar um pulo pra frente, é uma pessoa especial, uma rebelde, e quanto mais eu pesquisava sobre sua vida e conversava com seus colaboradores, mais eu sabia que esse filme tinha que ser feito.

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O filme não é exatamente uma biografia, já que se concentra em um momento da vida de Nise. Por que escolheram contar esta parte da história?

A Nise não gostava de biografias, isso foi importante para decidirmos fazer um recorte. O filme fala do momento em que Nise volta ao hospital do Engenho de Dentro, oito anos depois de sair da prisão, e volta a exercer sua função de psiquiatra. Chegando lá, se depara com os novos tratamentos, como o eletrochoque e a lobotomia e se recusa a participar disso. Nosso filme mostra a ruptura de Nise com a psiquiatria convencional e o começo de um novo trabalho que impactou o estudo da mente no mundo inteiro.

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Como foi feita a escolha do elenco?

Fomos atrás de atores que compusessem uma equipe, que tivessem uma capacidade de se adaptar aos outros, fizessem parte de um grupo, soubessem construir o todo. Que pudessem se divertir, se interessar e viver o processo. O filme se transforma na mão da equipe, então eu gosto de trabalhar com gente que entenda seu papel dentro do grupo. Foi um processo muito rico e com desafios diários, para não errar no tom e nem desviar do nosso rumo.

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Apesar de ser uma ficção o filme conta histórias reais, da Nise da Silveira e de alguns de seus clientes mais famosos. Explique esse processo partindo da pesquisa até a filmagem.

Construímos uma rede com vários colaboradores de Nise. Conversamos com muitas pessoas que trabalharam com ela no Engenho de Dentro, desde Martha Pires Ferreira e Almir Malvignier, que trabalharam diretamente com artistas como Fernando, Emygdio e Raphael, e aparecem no filme, como também com a equipe do Museu de Imagens do Inconsciente, Luiz Carlos Mello, Gladys Schincariol, além do Lula Vanderlei e da Gina Ferreira, entre outros. Lemos também os prontuários dos pacientes e todas as anotações que conseguimos encontrar. O roteiro passou por vários tratamentos, com diversas abordagens, e a versão final foi feita a partir de recortes tirados de todos os outros.

Os atores leram todas essa pesquisa, e foram conhecendo mais através de pesquisas no Museu de Imagens do Inconsciente. Luiz Carlos Mello deu aulas para os atores que interpretaram os clientes sobre cada um dos personagens reais. Além disso, eles tiveram contato com todas as obras originais. Então, sabendo intimamente a biografia dos personagens, os atores foram preparados no Engenho de Dentro, entrando naquela rotina e sentindo a energia daquele lugar, tanto dentro de uma sala com o preparador de elenco Tomás Rezende, quanto andando pelo espaço do centro psiquiátrico, pelas enfermarias. Cada um deles foi preparado fisicamente de uma forma específica. Era como se os autores daquelas obras voltassem para revisitar suas próprias obras.

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Qual foi a importância de se filmar no próprio Hospital do Engenho de Dentro, o Centro Psiquiátrico Pedro II?

Estar lá foi fundamental, porque mergulhamos na atmosfera do filme. Alguns colaboradores de Nise que estão lá até hoje volta e meia passavam pelas filmagens, iam lá no meu ouvido me lembrar de alguma coisa ou contar alguma história. Também tivemos a participação de vários esquizofrênicos que entraram de maneira muito intensa no filme. Nós passamos a conviver todos os dias com funcionários, médicos e esquizofrênicos; os ensaios e toda a pré-produção foram lá. Essa vivência foi fundamental.

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O filme tem imagens que parecem mais um documentário do que aconteceu ali. Por que escolheu fazer assim?

Diante da importância de Nise e de sua história, era fundamental que o filme fosse real e verdadeiro. Não sobrava tempo para inventarmos coisas que não fossem essenciais. Nise pede por isso. A ideia era recriar as cenas e que elas fossem filmadas com a câmera na mão, como se fosse um documentário. As ações levam a câmera, não são as pessoas que estão armadas em função de um plano. A cena em si tinha que ser real o suficiente. Por isso a importância de termos filmado dentro do hospital, onde tudo aconteceu. O cenário é um personagem muito forte do filme. O fator emocional foi muito intenso, o fez com que nosso filme tivesse uma verdade muito grande, em cada gesto e cada atuação. Ele nos levou de volta àquele tempo. Eu quis fazer com que os atores entrassem nessa realidade para recriá-las. Eles puderam ter seu tempo para entrar naquela história, o que é raro no cinema. E tentamos filmar em ordem cronológica, para que isso contribuísse no desenvolvimento dos personagens. Isso foi muito legal, porque os atores puderam viver cada curva de seus personagens e nós fomos vivenciando a história. Ficamos muito mais dentro da história. Estávamos ali liderados pela Nise e a Gloria fez esse papel muito bem.

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Qual é a importância desse filme na sua vida?

Quando eu estava fazendo “A Pessoa é Para o que Nasce”, eu tive a sensação de que estava fazendo um trabalho muito importante, que eu estava tentando dar um passo adiante e questionando várias coisas que eu já tinha feito na minha vida. Lá, eu estava descobrindo o cinema, a linguagem, acabei virando personagem de mim mesmo. Durante as filmagens do “Nise”, eu tinha certeza que estava diante de um assunto muito importante e que eu tinha a responsabilidade de contar isso de maneira honesta, simples e direta. Como diz a Gloria, sem ostentação. Acho que conseguimos isso.

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