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Resenha Crítica | Mãe Só Há Uma (2016)

Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert

Foi com surpresa que muitos receberam a notícia de que “Mãe Só Há Uma”, cuja existência era desconhecida, seria exibido na edição deste ano no Festival de Berlim. A diretora e roteirista Anna Muylaert sequer tinha concluído as campanhas de divulgação de “Que Horas Ela Volta?” para a disputa por uma nomeação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e para ganhar os lares com a exibição na Rede Globo.

É bom ver um projeto anterior de Muylaert em evidência após o êxito de “Que Horas Ela Volta?” e que segue discutindo os abismos sociais de nossa realidade a partir de uma premissa que prioriza questões sobre identidade. Mesmo assim, há o sentimento de desapontamento a partir de um resultado que soa incompleto, algo possível tanto em comparação com o drama protagonizado por Regina Casé quanto na decisão em isolar “Mãe Só Há Uma” desse ou de outros fatores externos.

Para o roteiro de “Mãe Só Há Uma”, Muylaert se inspirou no famoso Caso Pedrinho, no qual Pedro Rosalino Braule Pinto descobriu na adolescência ter sido tirado de seus pais biológicos já no berçário do hospital em que foi concebido. Bem como Pedro, Pierre (Naomi Nero) é notificado quando jovem sobre o fato de ter sido afastado de sua mãe verdadeira ainda recém-nascido. As consequências do crime surgem de imediato, com a mulher que a roubou, Aracy (Daniela Nefussi), sendo presa ao mesmo tempo em que os seus verdadeiros pais se preparam para acolhê-lo.

Porém, a confusão de origem vem em um momento no qual Pierre passa por verdadeiras autodescobertas, tanto em relação à evolução de sua anatomia quanto à própria sexualidade. Além de experimentar às escondidas roupas e assessórios femininos, o jovem também se lança em relações com meninos e meninas.

“Mãe Só Há Uma” preserva muito bem a dualidade que é essência do texto. Cada elemento parece dividido em duas naturezas que se recusam a mesclar. Pierre não só chega ao seu novo lar sendo tratado como Felipe, como também tem a sua mãe biológica, Glória, sendo também incorporada por Daniela Nefussi. Integra-se ao mesmo conflito Joca (Daniel Botelho), o irmão mais novo de Pierre/Felipe e pré-adolescente que se espelha em figuras autoritárias que apenas tumultuam a sua formação de caráter, sejam elas o seu pai Matheus (o sempre excelente Matheus Nachtergaele) ou a panela de amigos que está inserido.

A questão é que todos esses temas parecem modelar um filme feito a toque de caixa. Se por um lado Muylaert explora bem a conversão forçada de Pierre em Felipe, com uma mãe que se comporta inadequadamente para aplacar a ausência de um filho tomado e criado por outra mulher com valores distintos, do outro passa raspando por discussões abandonadas quando são finalmente acaloradas. Soam por vezes como estudos de caso, com traços que se desenham somente para justificar uma reação. Quinto longa-metragem para cinema de Muylaert, “Mãe Só Há Uma” é o primeiro em que os personagens não ficam conosco após os créditos finais.

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