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Resenha Crítica | É Apenas o Fim do Mundo (2016)

Juste la fin du monde, de Xavier Dolan

.:: 24º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade ::.

O prestígio que cerca jovens talentos geralmente é alvo de muitos protestos, especialmente quando o campo de atuação é a arte. Xavier Dolan tinha acabado de atingir a maioridade quando foi revelado ao mundo com o desconcertante “Eu Matei a Minha Mãe”. Desde então, transformou-se em um queridinho dos franceses, recebendo em Cannes duas vitórias no Grande Prêmio do Júri tendo somente 27 anos, um marco sequer atingindo por um sem número de veteranos que batem cartão com frequência no festival.

Todas as reações que cercam Dolan são exaltadas, sejam elas positivas ou negativas. Por um lado, o canadense é um bom diretor de elenco, algo que assegura por também desempenhar o ofício da interpretação, e compreende as possibilidades de artimanhas da linguagem, tendo em “Mommy” modificado a razão da tela com uma intenção muito mais do que estética. Por outro lado, a sua visão para dramas adultos soa infantilizada, por vezes tratando banalidades com a pirraça de um jovem que visualiza tudo como o fim do mundo – vem bem a calhar aqui o título de seu novo filme.

O seu sexto longa-metragem concentra tudo aquilo que faz valer todo o desprezo pelo seu cinema. Isso porque a adaptação que faz do espetáculo de Jean-Luc Lagarce é insuportável, um pavor. Escritor que oculta o fato de estar com uma doença terminal, Louis-Jean Knipper (Gaspard Ulliel) volta para a casa de sua família com a intenção de revelar a sua condição. Não há um segundo que ele não ensaie o modo como trará a informação à tona, mas sempre se acovarda quando se julga preparado.

Há quatro membros que o aguardam: a sua mãe (Nathalie Baye), a sua irmã caçula Suzanne (Léa Seydoux), o seu irmão mais velho Antoine (Vincent Cassel) e a sua cunhada Catherine (Marion Cotillard, deslocada como nunca). Raramente se viu um núcleo familiar que usasse tanto as trivialidades como justificativa para discutir aos berros. Ainda que alguma escolha no passado de Louis-Jean tenha deixado um mal estar na atmosfera da residência, briga-se por várias outras coisas, como a preparação do jantar, a ausência de cartas, a passividade de Catherine, a notificação de partida do anfitrião e por aí vai.

Dolan faz algo pior que um teatro filmado. Quase sem pausas para respiros, a sua câmera fica grudada nas faces do elenco durante 90 minutos, como se pretendesse com isso representar a rua sem saída em que está o seu protagonista, captando cada olhar e gota de suor, mas jogando pela lixeira a potencialidade dos intérpretes ao ignorar que uma atuação depende da anatomia em sua totalidade para se comunicar. A pretensão dessa escolha, somada à artificialidade da iluminação do diretor de fotografia André Turpin para reforçar a inconstância do temperamento dos personagens, não condena “É Apenas o Fim do Mundo” somente como o ponto mais embaraçoso da carreira de Dolan, mas também nos faz questionar se George Miller estava sob o efeito colateral de alguma tarja preta ao deliberar com o seu júri os melhores em competição no Festival de Cannes.

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