Resenha Crítica | A Mulher que se Foi (2016)

Ang babaeng humayo, de Lav Diaz

Em tempos em que até mesmo o cinema autoral tem se tornado menos contemplativo, a experiência de apreciar um filme de Lav Diaz é para poucos. Não à toa, somente os festivais de cinema costumam abrigar as suas realizações devido a incompatibilidade destas com o que se oferta no circuito comercial.

Ao menos no Brasil, parece existir uma remodelação desse interesse, pois “A Mulher que se Foi” é o seu terceiro projeto a desembarcar no país, um ano e alguns meses após os lançamentos de “Norte, O Fim da História” e “Do Que Vem Antes”. Mas há aqui duas distinções fundamentais: além de uma duração total (3h46m) abaixo do habitual praticada por Diaz, “A Mulher que se Foi” foi o vencedor do Leão de Ouro do último Festival de Veneza.

Interpretada por Charo Santos-Concio, Horacia já estava habituada à vida de prisioneira, tendo em cárcere se transformado em tutora de leitura e escrita para as suas colegas. Eis que, há 30 anos nessa condição, ela é libertada quando surge o testemunho de uma mulher que assume a autoria do crime pelo qual ela foi penalizada.

A primeira coisa a vir na mente de Horacia é a reconexão com os seus dois filhos. Minerva (Marjorie Lorico) é quem reencontra com maior facilidade, sabendo dela que o seu marido está morto e que o seu filho foi dado como desaparecido. Inicia-se assim a localização de sua cria, ganhando contornos obscuros assim que toma conhecimento de que um ex-amante e agora figura influente, Rodrigo Trinidad (Michael De Mesa), foi a peça definitiva para determinar a sua prisão.

Ainda que sejamos cúmplices da protagonista, que passa a adotar o nome de Renata, a impressão que se tem a partir do segundo ato de “A Mulher que se Foi” é a de que Hollanda (John Lloyd Cruz) é quem corresponderá as emoções mais genuínas. Travesti que se prostitui constantemente agredida e fragilizada por ataques epiléticos, Hollanda conquista a compaixão de Horacia ao ponto de quase preencher o vazio deixado por um filho que segue ausente.

O choque entre essas duas personagens é o que melhor Diaz tem a oferecer em termos de narrativa e imagem. O plano-sequência que registra o primeiro encontro entre ambas na calada da noite é um assombro e não falta afetuosidade quando estabelecem uma relação, como se consolida em uma cena na qual cantam e dançam tanto “Sunrise, Sunset” quanto “Somewhere”, respectivamente eternizadas em “Um Violinista no Telhado” e “Amor, Sublime Amor”.

Já em uma avaliação mais analítica, é evidente que decupagem é uma qualidade um tanto carente no cinema de Lav Diaz. Não há nada mais que se possa dizer de inédito sobre a extensa metragem de seus dramas filipinos. Porém, mais do que o experimento de ocupar um assento exclusivamente concentrado em um filme por um tempo desproporcional, está o enfraquecimento de um plano por demais estático ou a dever em refinamento estético.

É o que se evidencia tanto no amplo espaço nunca violado entre o assunto e a sua audiência quanto no dado visual inútil, como a luz estourada de uma paisagem emoldurada por uma janela ocupando a metade de uma reconciliação emotiva entre Horacia e Minerva ocorrendo à esquerda. Há instantes em que realmente desejamos adentrar o drama que se encena, mas o sentimento é de que Diaz nos manter a alguns palmos de distância.

Data:
Filme:
A Mulher que se Foi
Avaliação:
31star1star1stargraygray
Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

1 Comentário em Resenha Crítica | A Mulher que se Foi (2016)

  1. Nunca assisti a um filme do Lav Diaz, mas a sua reputação o precede. Deve ser uma experiência, no mínimo, interessante!

Comente

Follow

Get every new post on this blog delivered to your Inbox.

Join other followers: