Resenha Crítica | Fala Comigo (2016)

Fala Comigo, de Felipe Sholl

No passado, não era visto como um escândalo o relacionamento de casais em que um componente tinha o dobro da idade de seu parceiro, especialmente se o mais velho fosse um homem. Já agora, em que a questão da maioridade tem mais ênfase na sociedade, uma união como tal passa por uma série de julgamentos, inevitavelmente incluindo a condição de pedofilia ou abuso.

No fim das contas, é mesmo possível existir o amor entre indivíduos com uma diferença de idade tão gritante? Poderia um adulto relevar a inexperiência de vida de um jovem para assim selarem uma união estável? Reconheceria o mais novo no mais velho algo uma figura protetora como um pai ou uma mãe?

A maior virtude de “Fala Comigo” está em nos fazer passar por esses e outros questionamentos a princípio sem meias palavras. Melhor: dirigido e roteirizado por Felipe Sholl, a história propõe uma inversão ainda mais polêmica para espectadores castos, pois aqui é uma mulher mais velha que inicia uma relação com um homem mais novo.

Diogo (o estreante Tom Karabachian, filho do músico Paulinho Moska e afilhado de Adriane Esteves) tem 17 anos e descobre a sua sexualidade com um jogo erótico perigoso. Ao acessar a lista de clientes de sua mãe psicanalista Clarice (Denise Fraga), ele faz ligações para Ângela (Karine Teles) e se masturba ao ouvir a sua voz, catalogando as experiências em A4 com o seu gozo – Sholl assumiu a influência vinda do personagem de Philip Seymour Hoffman em “Felicidade” para inserir em seu protagonista esse hábito privado.

Claro que em algum momento tal prazer secreto seria revelado e Diogo o faz ao finalmente saber com quem está lidando, uma mulher na faixa dos 40 anos deprimida com o fim de um casamento e com tendências suicidas. Ao intervir na tentativa de Ângela em tirar a própria vida, o garoto acaba sendo exposto, mas não como se espera, pois ela encontra em seu obsessor alguém com quem realmente pode ter uma nova chance no amor.

A princípio uma presença excessivamente secundária, a personagem de Denise Fraga vai aos poucos ganhando um destaque para dar voz àqueles que contemplam com estranheza esse amor que se forma. Ele é realmente inadequado, mas é também possível e complementar para o seu filho e a sua paciente.

É importante observar que Sholl, evidentemente torcendo para a felicidade de Diogo e Ângela, não trata a atração de seus personagens como um fetiche. Ao diretor de fotografia Leo Bittencourt (mais habituado inclusive a registros documentais, como “Morro dos Prazeres”), orienta que registre não os corpos se tocando, mas a reação de êxtase.

Pena que a conclusão de “Fala Comigo” seja o que há de menos complexo no todo. Despudorado na investigação da intimidade e incisivo no que se compreende sobre relacionamentos, a resolução para tudo é fácil demais para algo que estava se construindo com tantas barreiras.

Data:
Filme:
Fala Comigo
Avaliação:
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Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

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