Heather Grahan é aquele tipo complicado de atriz. É bela, tem desenvoltura para papéis cômicos e, quando quer, arrasa em personagens dramáticas. Quando entrevistada no período de lançamento de “Diga que Não é Verdade”, uma comédia produzida pelos irmãos Farrell, a atriz chegou a se entristecer quando afirmou que alguns jornalistas a acusaram de “burra” ao responder algumas questões em coletivas anteriores daquela. Comentário maldoso para a carismática estrela, mas ela precisa de muita inteligência para selecionar os seus papéis. Mesmo que a contragosto dos próprios pais, Grahan acreditou que tinha potencial para ser uma atriz. Esse pensamento a fez ter participações sem muito destaque nos simpáticos “Irmãos Gêmeos” (de Ivan Reitman, com Arnorld Schwarzenegger e Danny DeVito) e “Sem Licensa Para Dirigir”. Mas foi com “Drugstore Cowboy” que começou a ser notada, numa performance que lhe valeu uma indicação ao Independent Spirit Award. Mas é interessante observar com atenção esta personagem de Grahan no filme de Gus Van Sant, já que ela se repetiu por muitas vezes em toda a sua carreira. Segundo a própria atriz, ela seleciona aqueles papéis com as quais acredita compartilhar da mesma personalidade e que lhe proporcione alguma entrega. Mas precisa ser de mulheres ingênuas, frágeis e confusas?
Admito que gosto bastante de “Mata-me de Prazer”, um filme do aclamado cineasta chinês Chen Kaige e da Alice de Heather Grahan. É uma história elegante, sensual e que aborda a atração de seus personagens pelo prazer selvagem. Prazer este que culmina numa revelação final para lá de inesperada, mas não improvável. E Grahan também encarnou outra personagem para lá de perplexa em “Boogie Nights – Prazer Sem Limites”, no seu melhor momento como uma jovem drogada e atriz de filmes pornôs que não se livra de seus patins – onde ganhou o MTV Movie Awards. Está muito bem também em “Do Inferno”, mas o restante não é nada muito digno de comentários. Tudo isto para chegarmos em “A Garota dos Meus Sonhos”. O filme, produzido por Alexander Payne, conta sobre dois irmãos, Gray (Grahan) e Sam (Tom Cavanagh), com seus trinta anos de idade que moram juntos num apartamento e que sofrem por não terem encontrado aquela desejada alma gêmea para se casar. Só que além desta situação, os dois dividem tantas coisas em igual que os próprios amigos (e o espectador) questionam se, na verdade, não se tratam de um autêntico casal, e não de irmãos. Afinal, eles também já dividiram, por engano, a mesma escova de dentes, e possuem uma paixão pela dança e, consequentemente, pelos filmes musicais.
O problema é quando a linda Bridget Moynahan, como Charlie, surge em cena. Susan Kramer, que além de dirigir, roteiriza e produz o seu primeiro trabalho, cria um quadro extremamente irritante e improvável para se acreditar. É por ela que Sam se apaixona e, num toque de inverosimilhança, já arma um casamento no primeiro encontro. Já presenciei um casamento relâmpago, mas este de “A Garota dos Meus Sonhos” consegue ser risível – e não por querer apresentar uma situação engraçada, mas sim por pura tolice de Kramer. Para piorar, mais um toque de gênio: de uma hora para outra, Gray descobre que é gay (isso faz com que um trocadilho infame com o seu nome seja apresentado) por beijar Charlie na véspera do seu casamento com Sam. O resultado de “A Garota dos Meus Sonhos” só não é mais trágico do que, por exemplo, “Cake – A Receita do Amor” (uma comédia horrorosa onde Grahan interpreta Pippa McGee, que é tão idiota quanto a Gray Matters) porque aqui aparecem três coadjuvantes que são dez: Molly Shannon, como a amiga de Gray, Sissy Spacek como a psicóloga da protagonista e Alan Cumming como um taxista muito carismático. Os três intérpretes estão tão bons que nos fazem esquecer que estamos lidando com uma história tão mal construída.
Título Original: Gray Matters
Ano de Produção: 2006
Direção: Susan Kramer
Elenco: Heather Graham, Thomas Cavanagh, Bridget Moynahan, Molly Shannon, Alan Cumming, Rachel Shelley, Bill Mondy, Don Ackerman, Warren Christie e Sissy Spacek.
Nota: 3.5

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