Encarnação do Demônio, de José Mojica Marins
Embora muitas pessoas, especialmente as mais jovens, não tenham visto ao menos um filme de José Mojica Marins, a sua famosa criação, o Zé do Caixão, é um nome presente na vida de todos os brasileiros como se fosse um personagem folclórico. Mas não é somente do cinema que Marins se mostrava em evidência, vendo as diversas atividades que exerceu ao longo dos anos como apresentador, convidado em shows (foi na apresentação da banda “Sepultura” que ele cortou as suas enormes unhas) ou mesmo de anfitrião em seções terroríficas em parque de diversões como o Playcenter – local este, inclusive, que acontece o ápice de “Encarnação do Demônio”, filme que Marins realiza um sonho de muitos anos atrás: fechar sua trilogia iniciada em 1964 com “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” e seguida dois anos depois com “Esta Noite Encarnarei no Seu Cadáver”.
Depois de conseguir investimento para o seu projeto quando os produtores morreram nas duas outras oportunidades passadas, aqui Marins contrói um roteiro bem simples com o apoio de Denison Ramalho. Depois de recrutar um grupo de serviçais, Zé do Caixão continua com a sua busca incessante por uma mulher perfeita ao qual gerará aquele que será o filho que prosseguirá com a sua trajetória. Mas é claro que haverá personagens que entraram no seu caminho, sendo as suas vítimas mais cedo ou mais tarde. Além daqueles moradores de favela que o enxergam com olhares nada agradáveis, há também um padre vivido por Milhem Cortaz que o procura com justificativa de vingança, contando com o suporte do Coronel Claudiomiro Pontes (Jece Valadão, que veio a falecer durante as filmagens de “Encarnação do Demônio”).
Ao cinéfilo que pouco aprecia encarar cenas fortes no cinema é bom se preparar: “Encarnação do Demônio” trás inúmeras sequências onde o banho de sangue e as diversas ferramentas de tortura são a atração principal, que vai de uma cena de sexo bem macabra assim como aquela realizada por Alan Parker em “Coração Satânico” até mergulho de mulheres em tambores com baratas e vermes e, para dar mais dicas do cardápio, outra tortura brutal com uma ratazana entrando por uma vagina. Só que o problema está centralizado mesmo na crítica, que defende este retorno de José Mojica Marins de forma infantil, especialmente quando o número nas bilheterias brasileiras não foram nada agradáveis. Um filme como “Encarnação do Demônio”, com toda a sua importância para a história de nosso cinema não merece ser relevado pelo público por causa de “similares” americanos bem-sucedidos (afinal, segundo alguns, quem vê “Jogos Mortais” e “O Albergue” tem que garantir reserva para conferir o longa por ser ainda mais brutal), sendo que o seu verdadeiro mérito se encontra na diversidade que aos poucos a nossa indústria cinematográfica vem abraçando, como visto nos prêmios merecidamente conquistados no recente Festival de Paulínia. Além do mais, “Encarnação do Demônio” é forte, caprichado e bem amarrado, mas os delírios encenados ao longo do filme não apavoram, são tediosos, repetitivos e nada parecem combinar com o Zé do Caixão.

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