Os cineastas Jaume Balagueró e Paco Plaza são grandes destaques dentro do cinema espanhol contemporâneo. E o talento de ambos justifica todo esse prestígio. No entanto, mesmo que os seus filmes obscuros tenham um delineamento invejável no que se diz respeito a atmosfera, Balagueró e Plaza trabalham com roteiros tão pretensiosos que nos impossibilita de entregar uma melhor avaliação para as suas obras. Basta assistir “A Seita” (de Balagueró) e “Romasanta – A Casa da Besta” (de Plaza) para notarmos que há um vigoroso trabalho técnico e habilidade para cenas de terror, mas que não sustentam a narrativa “viajante”. Isso muda de forma extraordinária em “[REC]”, um terror sensacional e de verdade que proporciona uma experiência perturbadora que não é transmitida desde “A Bruxa de Blair”.
A repórter Ángela Vidal (a sensacional Manuela Velasco, que fez uma pequena participação quando pequena em “A Lei do Desejo”, de Pedro Almodóvar) é incumbida juntamente com o seu cameraman Pablo (Pablo Rosso, ao qual nunca vemos e que é responsável pela fotografia do filme) para apresentarem uma nova atração para o programa “Enquanto Você Dorme”. Desta vez, a dupla deve cobrir a rotina noturna dos bombeiros. Eles passam pelo refeitório, dormitórios, quadra para esportes, banheiros e outros espaços do quartel aguardado por uma chamada com a intenção de registrar toda a operação dos bombeiros. Uma emergência acontece e ambos acompanham todo o percurso até um prédio onde num dos quartos há uma idosa que perturba os vizinhos com os seus gritos. Não é um ataque de loucura e um dos policiais que também averiguam a situação é atacado brutalmente. Quando todos vão a caminho do portão principal para escaparem deste perigo que logo se pronunciará como epidemia todo o local é bloqueado pela vigilância sanitária num estado agravante de quarentena.
Tudo isto é orquestrado por Balagueró e Plaza no mesmo recurso de “A Bruxa de Blair”: conduzido num formato como se tudo que vemos fosse registrado de forma verídica, apagando completamente a nossa convicção de que não passa de pura encenação. Embora este seja uma forma de cinema que aos poucos se adapta pela maneira como o público vem respondendo a isto no número de bilheterias, nenhum longa dessa safra recente foi capaz de ser tão marcante como “[REC]”. Talvez “Diário dos Mortos”, de forma alguma o fraco “Cloverfield – Monstro” e muito menos a péssima refilmagem de “[REC]”, “Quarentena”.
Manuela Velasco, que venceu o prêmio Goya de melhor atriz revelação ano passado, está impressionante ao interpretar de forma magnífica e crível o desespero que toma a sua personagem e a sensação do público se fixar em Pablo, como um objeto principal de cena que parece participar dentro da ação, é instantânea. Não há trilha instrumental, somente um trabalho de som competente que merece extremo reconhecimento. Mas muitos dos méritos devem ser devidamente depositados aos diretores que com um roteiro eficiente, também escrito por Luis Berdejo, criaram um filme que não se limita aos sustos. Muito pelo contrário. Renovam o conceito de filmes de zumbis, se tornam referência dentro do gênero e proporcionam uma experiência tão incômoda e de níveis tão insuportáveis que acabam por entregar a verdadeira mágica do nosso prazer pelo medo. Um sentimento que evitamos apresentar, mas viciosa no cinema quando este a proporciona através da ficção – e que é ainda mais eficiente quando surpreende pelo incrível realismo que a encena.
Título Original: [REC]
Ano de Produção: 2007
Direção: Jaume Balagueró e Paco Plaza
Elenco: Manuela Velasco, Ferran Terraza, Jorge Serrano, Pablo Rosso, David Vert, Vicente Gil, Martha Carbonell, Carlos Vicente, Claudia Font, Carlos Lasarte e Javier Botet.
Cotação: ![]()
Deixar mensagem para Ponto Crítico – Nov/08 « Cine Resenhas Cancelar resposta