Com um custo de produção bem minúsculo, John Carpenter fez de “Halloween” um dos maiores clássicos de toda a história do cinema de terror. Foi pelo sucesso de Michael Myers e de sua irmã Laurie Strode que o gênero se renovou, criando longas de baixo orçamento protagonizados por um vilão invencível e donzelas em perigo.
Franquias como a de “Sexta-Feira 13” devem muito ao clássico de Carpenter, assim como os sucessos teens atuais, que apanham muitas referências vindas de “Halloween”. A história do maníaco que foge depois de quinze anos preso em um manicômio e vai atrás da irmã babysitter rendeu sete sequências e, agora, uma refilmagem. Okay, no constrangedor “Halloween III”, Myers só aparece na tevê, mas esse capítulo planejado pelo produtor Moustapha Akkad é oficial.
Como fez Marcus Nispel com “Sexta-Feira 13”, Rob Zombie (mais conhecido como vocalista do White Zombie) molda, na verdade, não um remake completo da obra de Carpenter. Embora não seja um ponto muito relevante para a mitologia de Michael Myers, “Halloween – O Início” é também, como o título nacional sugere, um prequel.
O que se tem de inovador aqui é um primeiro ato melhor desenhado do que o concebido por Carpenter no filme de 1978. Se na sequência inicial do filme original acompanhamos Myers através de um recurso bem interessante de filmagem, o da visualização da câmera coberta pelos contornos de uma máscara, na qual persegue a sua irmã mais velha com a intenção de matá-la, Rob Zombie vai mais fundo. O diretor preenche os espaços vazios deixados sobre a infância de Myers em toda a série.
O Michael Myers daqui é uma criança revoltada (Daeg Faerch, que se submeteu a uma ofensiva paródia de seu papel aqui em “Hancock”), filho de mãe stripper (Sheri Moon Zombie, muito bem) e padrasto alcoólatra (William Forsythe). A sua irmã mais velha, Judith (Hanna Hall), também não é um bom exemplo de pessoa, seguindo aquele padrão de garota hostil. Se há algum sentimento consigo, eles são reservados unicamente para a sua mãe e a sua outra irmã recém-nascida.
Uma tragédia acontece à família Myers e o garoto, que a comete através do assassinato do padrasto e da irmã mais velha, vira objeto de estudo do Dr. Samuel Loomis (Malcolm McDowell, escolha brilhante para um papel que antes era do grande e falecido Donald Pleasence).
Os encontros entre essas duas figuras antológicas rendem uma sequência brilhante planejada por Zombie, na qual Myers ataca uma enfermeira (ponta de Sybil Danning) enquanto Loomis se retira do consultório com Deborah, a mãe de Michael. Mas vai um aviso desapontador. O acontecimento de forte impacto, no qual a câmera de Zombie consegue focar um Myers entregue à maldade sem possibilidades de reparação, é o limite do horror que a produção alcança. E ela acontece antes de se apresentar o segundo ato de “Halloween – O Início”.
Daí em diante o foco muda. Laurie Strode (Scout Taylor-Compton, ótima como a nova Laurie, mas que não chega aos pés da eterna Rainha do Grito, Jamie Lee Curtis), já acolhida por uma outra família e na pós-adolescência, começa a notar uma estranha presença perseguindo-a.
Quem viu o clássico de Carpenter sabe que é Myers já livre do sanatório e determinado a enfrentá-la por ser o único laço familiar que lhe restou.
O problema é que Rob Zombie, neste ponto, parece ter perdido o controle da situação. Ou melhor, a criatividade. A sua noite do Dia das Bruxas não passa de uma cópia pouco imaginativa e raramente aterrorizante do filme original. Nem as participações especiais de gente de peso (Danny Trejo, Bill Moseley, Brad Dourif, Udo Kier, Dee Wallace e Sid Haig) e a formidável trilha sonora de Tyler Bates, que aqui recria os acordes de John Carpenter com tons ainda mais estarrecedores e barulhentos, conseguem empolgar muito.
A verdade é que Michael Myers continua sendo uma criatura enigmática muito interessante de ser analisada, e isso não muda com o fato de ele aqui ser incorporado pelo gigante Tyler Mane (para quem não sabe, ele fez o Dentes de Sabre no primeiro filme dos “X-Men”).
O que foi estabelecido em toda a franquia, e com o qual Rob Zombie não lida muito bem aqui, provocando certa frustração, é que atrás da máscara do vilão se esconde um ser indecifrável. A melhor interpretação que se pode ter (e com base em um depoimento de Sam Loomis no segundo “Halloween”, de 1981) é a de uma pessoa com todo o mal existente armazenado em si mesma. O fato de tentar nos desvendar quem é Michael Myers acaba com a emoção.
Quem sabe se na sequência, que já está sendo preparada para as telas, Rob Zombie novamente amadureça – como na transição feita de “A Casa dos Mil Corpos” para o estupendo “Rejeitados Pelo Diabo” – e consiga desta vez entregar um excelente trabalho?
★★★
Halloween
Direção de Rob Zombie
Assistido em DVD (PlayArte)

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