O diretor britânico Mike Leigh sempre preservou fortemente em seus roteiros pessoas que não contém as emoções diante das adversidades que surgem em suas vidas. É o que acontece em filmes como “Segredos e Mentiras” e “O Segredo de Vera Drake”, onde os personagens, especialmente as protagonistas, revelam as suas tristezas e os seus medos. Poppy, a personagem a frente de “Simplesmente Feliz”, também é assim. Mas ela não está diante de uma tragédia ou revelação de surpreendente impacto. Tampouco é uma mulher deprimida.
Poppy, que é interpretada pela radiante Sally Hawkins, é uma pessoa, como o título nacional entrega, simplesmente feliz. Não importa que a sua vida amorosa esteja em baixa ou mesmo que o mundo onde vive esteja cercado de tragédias, Poppy sempre vai encarar tudo com sua felicidade inesgotável. E esta é praticamente toda a história presente na nova realização de Leigh, não conferindo exatamente a estrutura narrativa convencional de cinema, onde um argumento ganha forma através de um início, meio e fim. Só que irá surgir alguém essencial na vida de Poppy que vai agitar tanto a si quanto ao filme.
É o personagem do excelente Eddie Marsan, Scott. Ele é um professor de auto-escola que programa todos os sábados com Poppy uma aula prática de direção. As coisas fervem entre ambos, pois enquanto Poppy é aquela garota de exorbitante harmonia, Scott é o extremo oposto: é um sujeito mal-humorado, que parece desprezar a própria vida. Os embates verbais entre os dois levarão a consequências explosivas.
Mas o que é legal em “Simplesmente Feliz” é mesmo a personagem que Leigh desenhou, talvez a mais interessante em toda a sua carreira como autor. Poppy parece acreditar que a sua missão sagrada na Terra é proporcionar ao menos um pouco de felicidade para aqueles ao seu redor. Mas não se trata de uma pessoa que se comporta com infantilidade ou, sendo mais rude, uma retardada, embora a princípio venhamos com esses julgamentos. E o que faz nós mudarmos o nosso conceito sobre Poppy é o desempenho de Sally Hawkins (que venceu o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Comédia ou Musical e o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim, mas que, lamentavelmente, acabou ficando de fora da seleção final de interpretações femininas na última edição do Oscar), em desempenho crível, cativante. É um filme simpático, repleto de situações deliciosas e que motiva o público ao término da sessão encarar o mundo com um pouco mais de alegria.
Título Original: Happy-Go-Lucky
Ano de Produção: 2008
Direção: Mike Leigh
Elenco: Sally Hawkins, Eddie Marsan, Alexis Zegerman, Andrea Riseborough, Sinead Matthews, Kate O’Flynn, Sarah Niles, Jack MacGeachin e Charlie Duffield
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