A princípio, tudo parecia conspirar contra “Preciosa – Uma História de Esperança”. Mesmo sendo uma adaptação de um consagrado romance da poetisa Sapphire, os principais envolvidos não tinham uma boa reputação perante público e crítica no que está relacionado a qualidade de seus trabalhos antes do envolvimento neste projeto independente. Claro exemplo é Mo’Nique, com uma carreira dedicada a papéis simplesmente sofríveis. Ou mesmo Lee Daniels, cujo trabalho anterior, “Matadores de Aluguel”, foi uma primeira experiência frustrante por trás das câmeras. As seis indicações ao Oscar, com duas vitórias nas categorias de roteiro adaptado e atriz coadjuvante, são as chances dos intérpretes e realizador em procurarem a partir de agora por produções mais promissoras e desafiadoras.
A história de Claireece Jones, conhecida como Precious (a estreante Gabourey Sidibe), é brutal. Se não bastasse qualquer preconceito que sofreria por ser uma jovem cidadã negra, obesa e semianalfabeta em plena década de 1980, Precious, após ser abusada pelo seu pai por mais uma vez, está grávida de seu segundo filho e come o pão que o Diabo amassou nas mãos de sua mãe Mary (Mo’Nique), que a humilha e a espanca frequentemente. Precious só passa a receber chances de reverter o trágico quadro de sua vida ao ser matriculada em um colégio para alunos especiais, onde recebe todo o apoio de sua professora, Ms. Rain (Paula Patton, muito bem), e as alunas que têm problemas pessoais ao ponto de prejudicarem os estudos.
Mesmo que Precious comece a driblar todas as adversidades, não há momento de paz algum em seu cotidiano. Para dar veracidade a vida dessa personagem, Lee Daniels não poderia contar com um elenco melhor, que merece um destaque todo especial, a começar pela novata Gabourey Sidibe, devastadora pela entrega ao papel. Mo’Nique, especializada em desempenhos cômicos em filmes sem nenhuma expressão, faz com que um monstro em pessoa adquira um mínimo de humanidade através de um monólogo que figura como uma das sequências mais antológicas entre os lançamentos do último ano. No entanto, quem de fato surpreende é a cantora Mariah Carey. Encarada como piada ao se envolver com o fiasco “Glitter”, aqui ela assume o papel que seria de Helen Mirren com uma performance cheia de nuances. Se a Academia não tivesse um preconceito tão expressivo com “cantrizes”, Carey seria a pessoa ideal a ocupar uma vaga na categoria de melhor atriz coadjuvante injustamente reservada para Penélope Cruz.
Dito tudo isto sobre o fantástico trabalho das atrizes, é necessário também refletir sobre a força da narrativa de “Preciosa – Uma História de Esperança”, o melhor longa-metragem entre os indicados a última edição do Oscar. É mostrado sem cerimônias o triste universo de Precious, havendo algum refúgio somente com as suas fantasias onde ela se vê como uma estrela pop. A violência é incômoda e muitos se sensibilizaram com ela. O que não impede que seja imaginado no desfecho cru de Precious um caminho onde a esperança prevalece.
Título Original: Precious: Based on the Novel Push by Sapphire
Ano de Produção: 2009
Direção: Lee Daniels
Elenco: Gabourey Sidibe, Mo’Nique, Paula Patton, Mariah Carey, Lenny Kravitz, Sherri Shepherd, Stephanie Andujar, Chyna Layne, Amina Robinson, Xosha Roquemore, Angelic Zambrana, Aunt Dot, Nealla Gordon e Barret Helms.
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