Que o cinema sempre preservou uma obsessão em retratar aquilo que já é passado, que pertenceu a outra geração, não é novidade. Porém, raramente um feito é tão grande quanto o obtido pelo jovem Ti West em “A Casa do Diabo”, filme de terror que estreou no último Halloween americano em circuito restrito, mas que obteve imediato reconhecimento da crítica especializada – no site Rotten Tomatoes ele foi um dos poucos filmes a adquirir em 2009 impressionantes 85% de críticas positivas. West não ambienta somente sua narrativa para meados dos anos 1980 como faz com que o espectador reviva aquela época. Mesmo realizado no ano passado, é difícil não pensar se estamos diante de algo filmado em torno de trinta anos atrás.
Clássicos letreiros iniciais com frames que se congelam ao exibir nome de atores e seus respectivos personagens, penteados, trajes e objetos que vão de walkman cassete a aparelho telefônico de disco são alguns “truques” usados para “A Casa do Diabo” nos transferir para aquela época. A nostalgia é tanta que o marketing realizado pela produção é uma das mais criativas já realizadas: além de cartazes com artes típicas dos anos 1980 que foram espalhados pela Internet, o consumidor que adquirir o DVD a venda nos Estados Unidos leva gratuitamente o mesmo título em formato VHS.
A experiência de se assistir “A Casa do Diabo” é ainda mais saborosa para qualquer fã do gênero. A incrível Jocelin Donahue, uma atriz que definitivamente deve ser descoberta, vive a mocinha Samantha. A personagem é influência de qualquer terror daquela época: trata-se de uma babysitter à procura de dinheiro para abandonar o seu apartamento com seu antipático companheiro de quarto e viver sozinha em uma residência enquanto conclui os estudos. Surge a chance de trabalhar por todo o período da noite e em pleno eclipse na casa da família Ulman. O casal vivido pelos veteranos Tom Noonan e Mary Woronov é articulado e aparenta ser honesto, mesmo que, na verdade, tenham mentido enquanto a quem Samantha vigiaria. Não é uma criança, mas sim a inválida mãe do senhor Ulman.
Em sua primeira hora, “A Casa do Diabo” se dedica a desenvolver duas características. A primeira é a personalidade da própria Samantha, que contando com o talento de Jocelin Donahue se apresenta como uma figura feminina original pouco contemplada em outros exemplares. A segunda característica é a própria narrativa, criada com um controle admirável. Pouco acontece, mas a tensão crescente é de deixar-nos com os nervos à flor da pele.
O único problema de “A Casa do Diabo” é que Ti West não soube deixar o espectador no escuro. Culpa de um dispensável letreiro inicial, que permite ao espectador antecipar algo a respeito da revelação final antes que ela se apresente à Samantha. É um erro tão gratuito, comprometedor e fácil de ser evitado que infelizmente custou as cinco estrelas que “A Casa do Diabo” receberia abaixo.
Título Original: The House of the Devil
Ano de Produção: 2009
Direção: Ti West
Roteiro: Ti West
Elenco: Jocelin Donahue, Tom Noonan, Mary Woronov, Greta Gerwig, AJ Bowen, Heather Robb e Dee Wallace
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