Com três filmes no currículo como diretor, o americano Lee Daniels deixou claro o que pretende com o seu cinema: evidenciar o lado negro de seus personagens, devidamente inseridos em um cenário decadente. “Matadores de Aluguel” não foi uma boa estreia e “Preciosa – Uma História de Esperança” arrebatou a todos. Ressurge agora com “Obsessão”, drama criminal baseado em um romance de Peter Dexter. Desde sua primeira exibição no Festival de Cannes até seu recente lançamento em homevideo (no Brasil, o filme tem estreia prevista para julho), as reações foram divididas.
Ambientada na Flórida dos anos 1960, a história inicia com o assassinato do xerife Thurmond Call supostamente cometido por Hillary Van Wetter (John Cusack). Condenado a cadeira elétrica, Hillary atrai a atenção de Ward Jansen (Matthew McConaughey), um jornalista idealista que retorna à Florida na companhia de Yardley Acheman (David Oyelowo), inglês e negro – a comunidade sulista, racista, o encara com maus olhos. Irmão de Ward, Jack Jansen (Zac Efron) assume espaço central na história ao auxiliá-lo na missão de reunir provas que possam livrar a barra de Hillary. Durante esse processo, Charlotte Bless (Nicole Kidman) surge em cena se apresentando como a amante de Hillary, embora se conheçam somente através da troca de correspondências.
Embora a sinopse transmita a sensação de estarmos diante de um título convencional do gênero, a estética e as inúmeras reviravoltas garantem soluções imprevisíveis. Cortes secos, fotografia granulada e imagens trêmulas (senão repulsivas) são perfeitamente adequadas à narrativa, de uma sordidez com o poder de atrair ou afastar. Já as camadas que formam cada um dos personagens garantem desempenhos arrebatadores de todo o elenco, do qual se destacam a entrega de Nicole Kidman a um papel ousado (a cena da prisão e da praia, que envolvem orgasmo e urina, são antológicas) e a sutileza da cantora Macy Gray ao viver Anita Chester, a empregada de Jack.
Diante desses acertos, é difícil acreditar que “Obsessão” possa provocar um pouco de indiferença. Isso acontece porque há descontrole na ação. Há inúmeras perspectivas aqui e fica difícil compreender a verdadeira intenção do roteiro assinado por Lee Daniels e o próprio Peter Dexter. Temos o jovem entregador de jornal e ex-nadador Jack como protagonista, mas “Obsessão” também tem Anita assumindo esta responsabilidade ao narrar os acontecimentos (todo o filme é um flashback) e Ward e suas crises com sua própria orientação sexual. Esta ausência de foco direciona “Obsessão” a um encerramento inegavelmente forte e, ao mesmo tempo, insatisfatório.
The Paperboy, 2012 | Dirigido por Lee Daniels | Roteiro de Lee Daniels e Peter Dexter | Elenco: Zac Efron, Matthew McConaughey, Nicole Kidman, John Cusack, David Oyelowo, Scott Glenn, Ned Bellamy, Nealla Gordon e Macy Gray

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