
Adaptado em todos os países que vem ganhando exibição, o pôster do drama “Depois de Lúcia” mostra sua protagonista, a adolescente de 15 anos Alejandra (Tessa Ia, de “Vidas que se Cruzam”), levando um tapa na cara. Considerando-o junto com outros materiais de divulgação, a sensação que se tem é de que a trama gira em torno de um caso de bullying, pois a sinopse deixa claro que Alejandra é uma estudante que sofrerá nas mãos de seus colegas de classe após uma polêmica.
Apesar dessa interpretação, que vem sendo mantida por muitos espectadores chocados com as barbaridades encenadas pelo cineasta Michel Franco (em segundo trabalho em longa-metragem que lhe valeu o prêmio Um Certo Olhar no Festival de Cannes), “Depois de Lúcia” é, na verdade, um filme sobre o luto. Pai de Alejandra, Roberto (Hernan Mendoza) encara com desânimo a sua existência após a morte de sua esposa em um acidente automobilístico. Nem a mudança para o Novo México e muito menos o novo emprego o animam. No entanto, Roberto tem Alejandra para criar e diz que ela precisa compensar as suas demonstrações de carinho sendo uma boa aluna.
Embora Alejandra não seja uma garota certinha, ela está longe de ser um mau elemento. É atenciosa com o pai e também com os amigos que faz no novo colégio. A boa reputação que cria desmorona assim que um vídeo em que ela transa com um rapaz de sua turma é visto por todos os alunos da instituição. Se o compartilhamento de um momento íntimo já não fosse suficientemente vergonhoso, Alejandra passará a ser hostilizada, especialmente pelos seus colegas mais próximos. Uma humilhação diária do qual seu pai sequer tem ciência.
Após um primeiro ato sem grande densidade, “Depois de Lúcia” investe em uma sucessão de cenas que poderá testar os limites do espectador mais sereno. Tentativas de assédio, disparos de ofensas e prendas coletivas são apenas alguns acontecimentos desta verdadeira via crucis atravessada por Alejandra. Talvez desde “Vênus Negra” que não se vê no circuito nacional alternativo um longa-metragem com uma protagonista submetida a tantas humilhações.
Lamentavelmente, o diretor Michel Franco transforma “Depois de Lúcia” em um filme que nos marca pelos motivos errados. Franco não está interessado em fazer uma análise das razões que levam um grupo de alunos a selecionar um indivíduo para servir como mero objeto de ridicularização. Sua escolha é fazer com que o bullying seja encarada por Alejandra como uma forma de penitência pela tragédia que resultou na ausência de uma figura materna. Portanto, Alejandra não encara somente com passividade todo o mal que lhe infligem, como também com complacência.
Pior do que defender esta postura para uma personagem que não havia demonstrado em nenhum momento a falta da mãe antes da circulação do vídeo que flagra o ato que a compromete é a própria direção de Michel Franco, simplesmente terrível. A falta de profissionalismo do elenco vem sempre à tona quando cada membro caminha sem nenhuma naturalidade até o ponto em que a câmera está fixada. O incômodo prossegue nos inúmeros instantes em que Roberto é flagrado conduzindo o seu veículo e em planos abertos que não permitem que visualizemos as faces de cada intérprete. Um filme que não vai além do choque passageiro.
Después de Lucía, 2012 | Dirigido por Michel Franco | Roteiro de Michel Franco | Elenco: Tessa Ia, Hernan Mendoza, Gonzalo Vega Sisto, Tamara Yazbek Bernal, Francisco Rueda, Paloma Cervantes, Juan Carlos Berruecos, Diego Canales | Distribuidora: Imovision

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