
Maleficent, de Robert Stromberg
A Disney concebeu histórias imortais através da animação. Títulos como “Branca de Neve e os Sete Anões” e “A Bela e a Fera” são conhecidos de cor e salteado, inclusive por crianças e adultos que jamais os conferiram na íntegra. Passaram-se vários anos desde as suas produções e hoje vivemos em um cenário que não comporta mais a fragilidade conferida a essas moças que antes dependiam da presença de um príncipe encantado e da promessa de amor eterno para se autoafirmarem.
Como visto em duas releituras recentes em live-action de “Branca de Neve e os Sete Anões”, “Espelho, Espelho Meu” e “Branca de Neve e o Caçador”, a protagonista já não é mais a garota indefesa de outrora. É preciso vê-la liderando uma tropa e bem preparada para usar espada e escudo. O envolvimento com um cavaleiro se torna assim algo deixado para depois, pois a prioridade é enfrentar a adversidade, lutar pela própria sobrevivência.
Aurora (vivida na fase adolescente por Elle Fanning) recebe uma repaginada em “Malévola”, mas é a personagem-título, vilã célebre de “A Bela Adormecida”, que é revista de modo mais radical. Portanto, o filme de estreia de Robert Stromberg na direção também se preocupa em remodelar Malévola, encarnada com aquele gosto perverso inimitável de Angelina Jolie. Eis assim uma Malévola que representa uma dualidade em seu caráter, com boas e más intenções que recebem o aprofundamento merecido.
Antes de se corromper pela maldade do reino ligado a floresta mágica e vívida que habita, Malévola foi uma fada pura e que preservava a integridade de seu lar com perseverança. Ao se deparar na infância com Stefan (que será encarnado por Sharlto Copley na fase adulta), Malévola conhece o amor. Tudo para, na sequência, ter a convicção plena da inexistência deste sentimento ao desvendar em Stefan um homem obcecado pelo poder, o que lhe custa suas belas asas e benevolência. Compreensível que lance assim um feitiço contra Aurora, filha que o agora Rei Stefan tem com Leila (Hannah New), que a fará dormir eternamente ao completar 16 anos contanto que alguém que a ame de verdade a desperte com um beijo.
“Malévola” tem um primeiro ato primoroso e um clímax surpreendente e oportuno para validar os valores que hoje caracterizam a mulher independente. Já o desenrolar do roteiro de Linda Woolverton (uma veterana na Disney) é muito problemático. Ao enaltecer suas protagonistas, Woolverton transforma todas as figuras masculinas em meras caricaturas, especialmente o Príncipe Phillip (Brenton Thwaites), que surge na história sem qualquer aviso prévio. Salva-se Diaval, o serviçal de Malévola vivido pelo carismático Sam Riley. Além do mais, as elipses comprometem a harmonia da interação entre personagens e o curso de algumas ações. Tivessem meia hora a mais ao seus dispor, é certo que Robert Stromberg e Linda Woolverton dariam um acabamento mais caprichado ao filme.

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