
Real Beleza, de Jorge Furtado
Na melhor cena de “Real Beleza”, uma fotografia de Henri Cartier-Bresson é essencial não somente para o primeiro encontro entre os personagens de Vladimir Brichta e Francisco Cuoco, respectivamente João e Pedro, como também para ampliar as possibilidades de identificarmos o que, afinal, é essencialmente belo. João é um fotógrafo e diz que a sua imagem favorita de Bresson é “Behind the Gare Saint-Lazare”, de 1932. Pedro, um homem com mais de 80 anos e prestes a perder toda a visão, faz observações sobre o registro que o olhar viciado de João certamente não reparou. Manifesta-se assim uma contradição, pois estamos diante de um homem com uma sensibilidade muito mais apurada do que a do profissional diariamente importunado pelo excesso de beleza que as suas modelos conferem.
O ponto de partida de “Real Beleza” proposto por Jorge Furtado é menos emblemático, para não dizer incomodamente banal. Irritadiço, João tem como próximo projeto profissional perambular pelo interior do Rio Grande do Sul em busca de uma jovem que tenha uma beleza singular. São muitas concorrentes e João seleciona Maria (Vitória Strada, excessivamente comparada à Catherine Zeta-Jones ao se tornar miss), realmente hipnotizante.
As expectativas são subvertidas quando a atração entre fotógrafo e aspirante a modelo não se confirma quando o primeiro conhece a mãe da segunda, Anita (Adriana Esteves). Trata-se de uma mulher que se relacionou com um homem, Pedro, que tem o dobro de sua idade e que o vê definhando até surgir a oportunidade de concentrar os seus sonhos juvenis em Maria. Anita está disposta a autorizar Maria a abdicar dos estudos para se tornar uma top model. Pedro desaprova.
“Real Beleza” veio do desejo de Jorge Furtado, um diretor afeito a comédias de uma qualidade nem sempre vista em nossa cinematografia atual, em enveredar pelo drama. Sua intenção é administrar e compreender o silêncio que a sua história permite, bem como identificar sentimentos com a profusão de possibilidades estampadas no rosto de Esteves, Strada e especialmente Cuoco. A mudança de gêneros gera efeitos insatisfatórios, uma vez que o seu discurso sobre o que é belo cai na armadilha de compreender somente a superfície da estética, seja ela humana ou cinematográfica.

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