Fences, de Denzel Washington
Dramaturgo norte-americano e branco falecido em 2005, August Wilson deixou como legado um punhado de obras que conferiam um olhar especial para a condição de afro-americanos em períodos que avançavam para conseguirem um lugar ao sol em uma sociedade ainda inebriada pelo racismo décadas após o fim da escravidão. Escrito em 1987, “Fences” é um dos seus textos mais celebrados, tendo obtido com ele o Pulitzer.
Originalmente protagonizada por James Earl Jones, “Fences” recebeu revival na Broadway em 2010 com Denzel Washington e Viola Davis, com ambos vencendo o Tony Awards por suas interpretações. Pois é a dupla que está à frente da versão para o cinema, com o próprio Washington se encarregando da direção.
Coletor de lixo na Pittsburgh dos anos 1950, Troy Maxson (Washington) é um cidadão com um cotidiano extremamente regrado, variando pouco o ritual de ir ao trabalho e voltar para casa jogando conversa fora com o amigo Jim (Stephen Henderson) e exercendo o seu papel de pai rígido para Cory (Jovan Adepo) e Lyons (Russell Hornsby), com o primeiro empenhado em se tornar um jogador de beisebol enquanto o segundo tenta a vida como músico. Quando o seu temperamento está prestes a explodir, há sempre por perto Rose (Viola Davis), esposa totalmente dedicada à família.
Mesmo que ambientado integralmente na modesta residência dos Maxson, “Um Limite Entre Nós” consegue a princípio criar uma sensação da opressão vivida pela comunidade negra à época justamente pelas posturas de Troy. Mesmo conquistando uma evolução profissional ao se tornar o primeiro negro a ser promovido como condutor de uma companhia de coleta, Troy parece barrar o crescimento de Cory e Lyons por talvez avaliar a ausência de oportunidades para uma raça sempre relegada aos trabalhos braçais.
Ainda que esse isolamento funcione, por vezes tratando rápidas tomadas externas como intermissions, não se pode dizer que Denzel Washington tenha feito uma adaptação do texto de August Wilson, uma vez que ele parece não compreender as distinções entre o palco e a linguagem cinematográfica. “Um Limite Entre Nós” é puro teatro filmado, mas com resultados danosos até mesmo para os diálogos poderosos.
Trata-se da direção mais preguiçosa testemunhada recentemente, dessas incapazes de reforçar com imagens aquilo que é verbalizado ou que pretende representar. Acaba servido de esforço redobrado para Washington e Viola Davis conferirem alguma verdade a algo pouco palpável principalmente quando a narrativa excursiona em seu desenvolvimento por uma revelação que não se sustenta a contento justamente pelo desinteresse em perseguir a plenitude inerente ao fazer cinematográfico.

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