Paris pieds nus, de Dominique Abel e Fiona Gordon

A defesa do politicamente incorreto direcionou a comédia para um campo em que não parece existir limites para o exercício de uma piada. A defesa contra a censura assim isenta da responsabilidade aquele que não mede das consequências de sua bagagem cômica, um fenômeno comum não somente nos stand-ups, como também no próprio cinema.

Casal com longa tradição em espetáculos, Dominique Abel e Fiona Gordon chegam ao quarto longa-metragem juntos ainda correspondendo ao ideal de um Jacques Tati, em que o humor é uma junção de aspectos visuais e a palavra é secundária. O que não significa que “Perdidos em Paris” também não tenha a sua malícia, um dos vários elementos que tornam a obra de Abel e Gordon única.

Aqui, há um toque especial com a presença da lendária Emmanuelle Riva, lamentavelmente falecida em janeiro deste ano. Como Martha, uma idosa que se vê perseguida para abandonar o seu apartamento e viver em uma casa de repouso, ela é a razão para o encontro a princípio desastroso entre Dom e Fiona.

Sobrinha de Martha, Fiona vive na região mais gélida do Canadá e parte para Paris justamente para livrá-la do destino e obter a sua guarda. Desorientada como uma verdadeira turista, cruza o seu caminho com o de Dom, um morador de rua que se apropria da bagagem perdida de Fiona para depois tentar compensá-la na busca por sua tia.

A partir de planos simetricamente perfeitos, Dominique e Fiona, pela primeira vez sem trabalhar em parceria com Bruno Romy, narram essa história de encontros e desencontros em um dos mais belos cartões-postais do mundo com gags visuais e cores vivas que deixam “Perdidos em Paris” em um estado permanente de vibração. Mas o melhor é a inocência que contagia a todos, dessas que extrai do público mais maduro aquele estado de graça tão característico em crianças.

2 respostas a “Resenha Crítica | Perdidos em Paris (2016)”

  1. Avatar de Jayme Nigri
    Jayme Nigri

    SPOILER
    Se a Marta não morre no final, porque a Fiona não fica com ela?

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    1. Avatar de Alex Gonçalves

      Mas a Martha morre ao final, Jayme. São as cinzas dela que são espalhadas na cena final.

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