Resenha Crítica | Sem Amor (2017)

Sem Amor

Nelyubov, de Andrey Zvyagintsev

.:: 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Desde “O Retorno” (2003), longa-metragem de estreia laureado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza, que o cineasta Andrey Zvyagintsev vem diagnosticando a falência da família como instituição e a constituição de uma sociedade operada a partir de suas divergências sociais e éticas. O melhor é o progresso que demonstrou como realizador autoral, entregando desde “Elena” um drama superior ao anterior.

“Sem Amor” é a sua mais exemplar demonstração de excelência até aqui, em parte reconhecida com o Prêmio do Júri no Festival de Cannes do ano passado e com indicações ao Oscar, Bafta e Globo de Ouro a Melhor Filme Estrangeiro. Não à toa, a sua única exibição na 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo rendeu alvoroço entre o público na bilheteria.

Boris (Aleksey Rozin) e Zhenya (Maryana Spivak) estão com o casamento desfeito e já sustentam relacionamentos com outros companheiros, o primeiro com uma mulher a qual engravidou e a segunda, com um homem mais velho e bem-sucedido. Os elos que restaram são o apartamento que habitam e Alyosha (Matvey Novikov), o filho de 12 anos em que estão desinteressados em lutar pela custódia.

Sem deixar vestígios, Alyosha desaparece. A desolação bate para Boris e Zhenya, mas as discussões são muito mais pautadas sobre a culpa que um transfere para o outro pela irresponsabilidade como pais do que necessariamente sobre as pistas que podem ter sido deixadas para trás e que devem contribuir para as buscas.

A frieza é reforçada por uma fotografia de Mikhail Krichman amparada pelo cinza das arquiteturas e do clima invernal permanente. Há também um microcosmo que se desenha e que recebe grandes proporções principalmente com a música de Evgueni Galperine e Sacha Galperine, que nada ficam a dever a Philip Glass, de quem Zvyagintsev se apropriou em oportunidades anteriores.

Com isso, “Sem Amor” vai avaliando um estado de indiferença que parece contaminar uma nação, comentário que explicita principalmente com o modo como os seus personagens seguem com o seu cotidiano sendo alheios às pequenas tragédias ao fundo noticiadas em rádios. Indiferença essa que é inclusive capaz de deletar de todo um contexto uma presença humana indesejada que por um período ali habitou.

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