Como diretor, David Lynch soube como poucos profissionais do ramo focar com tanta intensidade a face negra da natureza humana, formada por um painel de emoções ambíguas.
Tudo, claro, por trás de personagens e situações enigmáticas que confundem a cabeça do espectador, por mais astuto que possa ser.
Essa escolha, mantida na maioria das suas realizações de forma louvável ao longo de quatro décadas de carreira, chega ao limite tolerável com “Império dos Sonhos”.
Trata-se do aguardado projeto de um cineasta que nada orquestrou, ao menos em longa-metragem, desde 2001 com o seu “Cidade dos Sonhos”, pelo qual foi indicado ao Oscar de melhor diretor.
Dizer que é o seu projeto mais pessoal é fato, já que o próprio escreveu, fotografou, produziu e editou. E também é o seu trabalho mais egoísta.
Egoísta pois Lynch fez e lançou o que lhe fosse conveniente, pouco se importando em entreter com o que de fato fosse prazeroso para o seu público, em um tom de homenagem para si mesmo.
Aos 62 anos, David Lynch sempre anunciou que poucas são as exceções de filmes que façam o público pensar, que não entreguem tudo mastigado ao ser servido. É verdade, mas é uma árdua tarefa quando a mesma pessoa oferece o próprio raciocínio para ser analisado.
Seria manjado recorrer à longa duração como uma experiência tortuosa pois, convenhamos, as três horas passam voando. O problema é o que ele incrementa para preencher esse tempo.
De tão incômodo, “Império dos Sonhos” até mesmo prejudica o próprio desempenho de Laura Dern, a grande musa de Lynch. Tão bem em representar um alarmante desespero, ela acaba sendo ofuscada por inúmeras situações de mistério que parecem não mostrar motivos suficientes para estarem presentes.
Poucas destas sequências estão à altura da até então lúdica trama sobre a atriz (Dern) que encontra a chance de reacender a sua carreira quando é convocada por um cineasta (Jeremy Irons) para protagonizar a refilmagem de um filme inacabado.
Tratava-se de uma produção amaldiçoada que cessou suas filmagens quando o casal fora brutalmente assassinado por circunstâncias não reveladas.
A possibilidade disto se suceder novamente está por conta das revelações de uma misteriosa senhora (Grace Zabriskie) que se apresenta como vizinha.
As queixas anteriores dos próprios fãs sobre os mistérios difíceis de serem decifrados voltaram com o lançamento de “Império dos Sonhos”, mas não são necessárias revisões ou teorias malucas para compreendê-lo na superfície.
Estão lá certas zombarias com o glorioso mundo que é Hollywood, com direito ao ângulo mais pobre de todos os tempos sob os letreiros cartão-postal e uma calçada da fama representando a sordidez desta arte.
Tudo é vomitado sem sutileza por uma atriz que parece ter vivido o inferno neste terreno badalado. Outro ponto abordado é a relação entre ação e reação, onde qualquer escolha ou erro terá as suas devidas consequências.
Indefinição de personalidade, idas e vindas no tempo e o amor obsessivo também servem como elementos à trama. O saudoso elogio fica por conta do que a mente insana de Lynch foi capaz de criar com o uso da limitada câmera digital.
As constantes trucagens da produção são concebidas na base da imaginação e talento, algo que certamente Lynch possui de forma ilimitada.
Exemplos não faltam, como no aproveitamento do curta “Rabbits”, da sua própria autoria, além da obscuridade que ronda a sua personagem. Mas é certo dizer que essa liberdade foi importuna.
Sem pressão alguma de executivos e responsável por diversos departamentos da própria obra, o cineasta simplesmente usou situações que são logo esquecidas. Elas não sobrevivem quando conectadas à seguinte, dando a impressão de que tudo vai chegar a lugar nenhum.
Se desejar arriscar um extenso estudo fazendo com que o filme seja gravado em sua mente até considerar uma resposta para cada cinco minutos do que foi visto na tela, boa sorte.
Porém, tudo não passa daqueles sonhos e pesadelos que, por mais belos e aterradores que possam ser materializados, não são profundos o suficiente para sobreviverem quando despertamos.
★★★
Inland Empire
Direção de David Lynch
Assistido em DVD (Europa Filmes)
Texto originalmente publicado em 19/02/2008

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