Resenha Crítica | De Bem com a Vida (1996)

De Bem com a Vida

Certos filmes, especialmente aqueles que trazem o conturbado mundo adolescente, costumam retratar a figura da mãe como irresponsável, imatura e cheia de neuroses. Em um caso que se desvia dessa “regra”, Nick Cassavetes, ao prestar homenagem a Gena Rowlands, utiliza um modelo oposto a estes em “De Bem Com a Vida”, o primeiro longa-metragem deste que é um dos diretores mais interessantes em atividade.

Aqueles que conhecem os seus trabalhos como cineasta sabem que Cassavetes tem o costume de usar os seus dramas como um símbolo de consideração àqueles que o ajudaram a desenvolver o seu caráter pessoal e profissional. Só para citar alguns exemplos: em “Loucos de Amor”, com Sean Penn, John Travolta e Robin Wright Penn, ele usou o roteiro escrito por seu pai, John Cassavetes; já “Um Ato de Coragem” é um longa dedicado a sua filha, Sacha, que passou pelas mesmas complicações cardíacas que o filho do personagem de Denzel Washington enfrenta.

Em “De Bem Com a Vida”, Gena Rowlands é Millie. Logo nos créditos iniciais, ela distribui jornais pela vizinhança enquanto conduz um carro au amanhecer. Só que não se trata de um pequeno serviço para esta dona de casa viúva acumular dinheiro extra: ela está ajudando a sua filha Annie (Moira Kelly, ótima) a executar o seu trabalho, sendo esta uma garota rebelde que não demonstra nenhum respeito pela progenitora.

Cansada das exigências, nada mais do que necessárias, de Millie, Annie toma a decisão de sair de casa e morar com o namorado. Essa atitude faz com que a matriarca se torne uma mulher ainda mais solitária, mas que reserva uma possibilidade que mudará a sua trajetória definitivamente.

Ao ver que Monica (Marisa Tomei, excepcional como sempre), sua vizinha, está passando por graves dificuldades no casamento, Millie se oferece como babá de seu filho pequeno, apelidado de J.J. (Jake Lloyd, apresentando um talento não confirmado ao interpretar Anakin no Episódio I de “Star Wars”). A convivência com essa criança e com Monica faz com que Millie reviva os tempos mais descontraídos de quando era mais nova, interrompidos ao exercer os deveres de mãe e esposa.

Ao se divertir com Monica em uma noite qualquer, Millie conhece Tommy (Gérard Depardieu), outra pessoa que marcará um espaço muito importante em sua jornada. Só que ela terá de continuar enfrentando muitas adversidades familiares. Millie precisa se decidir perante uma proposta vinda de seu filho mais velho e bem-sucedido, Ethan (David Sherrill), para cuidar do bebê que sua esposa Jeannie (Bridgette Wilson) espera, ao mesmo tempo que Annie a procura por dinheiro.

É dentro deste roteiro, também escrito por Helen Caldwell, que Cassavetes se esquiva dos estereótipos de mães do cinema, reservando um drama singelo e de fácil assimilação. Além disso, é uma bela amostra do talento e da relevância de Gena Rowlands, uma das maiores lendas do cinema.

Mas “De Bem Com a Vida” é muito mais do que uma homenagem à grande atriz e um filme comum. É nada menos do que uma representação de sentimentos verdadeiros e de que não importa a idade ou os obstáculos pelos quais passamos, pois a existência sempre nos proporcionará oportunidades de continuar em frente em busca da harmonia que sempre procuramos.

★★★★★
Unhook The Stars
Direção de Nick Cassavetes
Assistido em VHS (Videoteca Caras Quality)
Texto originalmente publicado em 12/10/2008

Deixe um comentário