Resenha Crítica | A Garota dos Meus Sonhos (2006)

A Garota dos Meus Sonhos

Heather Graham é aquele tipo complicado de atriz. É bela, tem desenvoltura para papéis cômicos e, quando quer, arrasa em personagens dramáticos. Quando entrevistada no período de lançamento de “Diga que Não é Verdade”, uma comédia produzida pelos irmãos Farrelly, a estrela chegou a se entristecer ao afirmar que alguns jornalistas a acusaram de “burra” em coletivas anteriores àquela.

Comentário maldoso para uma profissional tão cativante, mas ela precisa de muita astúcia para selecionar os seus projetos. Mesmo contra a vontade dos pais, Graham confiou que tinha potencial para a atuação. Esse pensamento a fez ter participações sem muito destaque nos simpáticos “Irmãos Gêmeos” (de Ivan Reitman, com Arnold Schwarzenegger e Danny DeVito) e “Sem Licença para Dirigir”.

Foi com “Drugstore Cowboy” que começou a ser notada, em uma performance que lhe valeu uma indicação ao Independent Spirit Award. Mas é interessante observar com atenção essa persona de Graham no filme de Gus Van Sant, já que ela se repetiu por muitas vezes em sua trajetória.

Segundo a própria artista, ela escolhe os papéis com os quais sente compartilhar alguma afinidade e que lhe proporcionem entrega. Mas precisa ser sempre de mulheres ingênuas, frágeis e confusas?

Admito que gosto bastante de “Mata-me de Prazer”, fita do aclamado cineasta chinês Chen Kaige, e da Alice de Heather Graham. É uma história elegante, sensual e que aborda a atração de seus personagens pelo prazer selvagem. Esse ímpeto culmina em uma revelação final surpreendente, mas não implausível.

Graham também encarnou outra figura perplexa em “Boogie Nights – Prazer Sem Limites”, no seu melhor momento como uma jovem usuária de drogas e atriz de filmes pornô que não se livra de seus patins – atuação que lhe rendeu o MTV Movie Award. Está muito bem também em “Do Inferno”, mas o restante de sua filmografia não é digno de nota.

Tudo isso para chegarmos a “A Garota dos Meus Sonhos”. O longa, produzido por Alexander Payne, fala sobre dois irmãos, Gray (Graham) e Sam (Tom Cavanagh), na faixa dos trinta anos, que moram juntos em um apartamento e sofrem por não terem encontrado a desejada alma gêmea para o casamento.

Só que, além dessa situação, os dois dividem tantas afinidades que os próprios amigos (e o espectador) questionam se, na verdade, não se trata de um autêntico casal. Afinal, eles até partilharam, por engano, a mesma escova de dentes, além de possuírem uma paixão mútua pela dança e, consequentemente, pelos musicais.

O problema surge quando a linda Bridget Moynahan, como Charlie, entra em cena. Sue Kramer, que além de dirigir, roteiriza e produz o seu primeiro trabalho, cria um quadro extremamente irritante e difícil de engolir. É por ela que Sam se apaixona e, em um toque de pura inverossimilhança, já agenda o matrimônio logo no premier encontro.

Já presenciei casamentos relâmpago, mas este consegue ser ridículo — não por apresentar uma situação engraçada, mas sim por pura ingenuidade de Kramer. Para piorar, há mais um golpe de mestre: de uma hora para outra, Gray descobre que é lésbica (o que rende um trocadilho infame com o seu nome) ao beijar Charlie na véspera da cerimônia.

O resultado só não é mais trágico do que o de “Cake – A Receita do Amor” (uma comédia horrorosa onde Graham interpreta Pippa McGee, que é tão insensata quanto Gray) porque aqui aparecem três coadjuvantes nota dez: Molly Shannon, como a amiga de Gray, Sissy Spacek, como a psicóloga da protagonista, e Alan Cumming, como um taxista muito cativante. Os três intérpretes estão tão bem que nos fazem esquecer que estamos lidando com uma narrativa mal estruturada.


Gray Matters
Direção de Susan Kramer
Assistido em DVD (California Filmes)
Texto originalmente publicado em 16/11/2008

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