Talvez seja a primeira vez que o universo das mulheres que se sustentam como strippers profissionais ganha uma abordagem relevante no cinema. Ao contrário do que foi feito por Andrew Bergman em “Striptease”, longa perdido nas suas pretensões e que amaldiçoa Demi Moore até hoje, “Divas do Blue Iguana” é um filme triste que transforma as suas personagens em algo bem distante daquilo que definimos como “vadias”.
Aqui, as tais divas são mulheres perdidas no ambiente que as cerca, que almejam algum afeto e possuem talento especial a ser desenvolvido, mas que só encontraram oportunidade de continuar seguindo um rumo se despindo em frente de homens mais vulgares e sujos que elas próprias. E ao contrário destes, as mulheres são as que mais apresentam garra e um sonho pelo qual lutar.
O que surpreende nesta premissa é que, por trás dela, está ninguém menos que Michael Radford, o cineasta sensacional responsável por “O Carteiro e o Poeta”, “O Mercador de Veneza” e o recente “Um Plano Brilhante”, que também dirige “Divas do Blue Iguana”. Aqui acompanhamos o dia e a noite de cinco dançarinas de uma boate. Pela manhã, encarando a dura existência. Pela noite, se apresentando.
Entre elas, Angel (Daryl Hannah, que realizou o documentário “Strip Notes”, baseado nas suas experiências com este filme) é uma das strippers que ganham grande destaque no drama, sendo uma pessoa de idade madura, mas que se comporta como uma pós-adolescente aguardando pelo instante em que possa vivenciar as experiências de ter uma filha. Só que suas neuroses também se assemelham a esta fase pela qual já passou por um bom tempo. Já Jasmine (Sandra Oh) é aquela que elimina as suas dores internas escrevendo poemas maravilhosos. E temos também Joe (Jennifer Tilly), meio estourada e que está grávida.
As atrizes Sheila Kelley e Charlotte Ayanna também têm os seus momentos interpretando, respectivamente, Stormy e Jesse. Mas o valor de “Divas no Blue Iguana” reside em algo raramente elaborado no cinema: o trabalho coletivo. Com o baixo salário que as atrizes receberam para embarcarem neste projeto, é surpreendente ver que todas elas se dedicaram de maneira intensa para a construção de suas personagens, conversando com strippers reais e visitando inúmeras boates para acompanhar a rotina das dançarinas.
Ao levantarem esta pesquisa, Radford, junto com David Linter, tratou de conceber a estrutura adequada para o longa. Apesar de todo esse esforço, “Divas do Blue Iguana” é irregular, e este resultado pode ser constatado analisando cada uma das estrelas envolvidas. Sandra Oh, excelente atriz e que tem bom currículo, é aquela que reserva a história com a qual mais nos identificaremos.
Em contrapartida, é Daryl Hannah que, assim como sua carreira, está a um ponto de se jogar no abismo. Ou seja: faltaram mais talentos para que a obra de Michael Radford se tornasse o estudo perfeito deste tema e que fosse dada como referência.
★★★
Dancing at the Blue Iguana
Direção de Michael Radford
Assistido em DVD (Imagem Filmes)
Texto originalmente publicado em 20/11/2008

Deixe um comentário