O pós-11 de Setembro possibilitou que alguns diretores, cujas filmografias apresentam longas que muito se espelham na realidade na qual vivemos, tomassem incentivo de desenvolver novos projetos.
Essas obras encenam tanto a tragédia da queda das torres gêmeas ou a invasão de soldados americanos no Iraque quanto o comportamento dos cidadãos dos Estados Unidos diante desse traumático ataque terrorista.
O sequestro do jornalista Daniel Pearl em “O Preço da Coragem”, a procura de Hank Deerfield pelo seu filho desaparecido em “No Vale das Sombras” e Nick tentando elaborar junto com Joan um discurso em homenagem àqueles combatentes que deram suas vidas em busca de sobreviventes ao ruir do World Trade Center em “Os Heróis” constituem uma pequena remessa dentro de uma extensa relação de dramas que transmitem toda a dor de seus personagens.
No entanto, tais exemplares podem ser encarados como um “treinamento” diante de “Guerra sem Cortes”, o mais novo filme de Brian De Palma, vencedor do Leão de Prata no Festival de Veneza em 2007. Antes de tudo, é fundamental alertar que o cineasta trabalha com uma premissa muito similar àquela apresentada em “Pecados de Guerra”, drama protagonizado por Michael J. Fox rodado em 1989.
Em ambas as produções acompanhamos um soldado de boa conduta diante da agressividade de seus companheiros no combate, que culmina no estupro coletivo de uma garota e, posteriormente, em sua morte. Mas além da diferença de um ser uma encenação e o outro também apresentar esse labor mas com documentos verdadeiros — como fotos, relatórios e vídeos —, temos sob controle um diretor que se comporta de forma distinta com a película.
Em “Pecados de Guerra”, J. Fox representava uma figura que gostaria de se ver distante de todos aqueles horrores do Vietnã. Em “Guerra sem Cortes”, que tem como ator central Rob Devaney — mais uma descoberta estupenda de profissional pelo diretor —, De Palma tem uma proposta primordial, que é mostrar o cenário que a mídia insiste em não exibir com clareza. Desta forma, prepare-se para uma experiência que é completamente desconfortável.
Mesmo que o estupro e o assassinato da menina Abeer Qasim Hamza al-Janabi e de toda a família com quem vivia em uma modesta residência sejam o principal foco adotado pelo realizador, existem muitos momentos de atrocidades desse trecho acontecido em 2006. Há o homicídio de uma mulher prestes a dar à luz, assim como a perturbadora sequência onde um recruta é decapitado por rebeldes iraquianos como amostra de vingança.
Para elevar essa denúncia, Brian De Palma também atua de forma documental em “Guerra Sem Cortes”, onde essa rotina dos militares americanos é interrompida por vídeos jornalísticos, depoimentos daqueles que observam com grande distância todo o horror e, claro, de assassinatos. Esses artifícios renderam, novamente, através de Brian De Palma, uma nova forma de se fazer cinema.
Mas o vigor de “Guerra sem Cortes” se concentra no desejo único do diretor: mesmo que a verdade tenha de ser exposta com rasuras propositais em forma de tarjas pretas, ela precisa ser mostrada para que consigamos nos conscientizar da extrema violência que nos cerca com maior intensidade a cada novo dia.
★★★★
Redacted
Direção de Brian De Palma
Indisponível no Brasil
Texto originalmente publicado em 13/11/2008

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