Resenha Crítica | Ensaio Sobre a Cegueira (2008)

Ensaio Sobre a Cegueira

No espaço virtual onde o cineasta brasileiro Fernando Meirelles dissecava a construção de seu novo longa internacional, Diário de Blindness, acredita-se que muitos leitores e admiradores de seu trabalho no cinema puderam notar as dificuldades e cuidados ao adaptar um romance de amplo sucesso e que já sinalizava divergências futuras entre o público mais conservador.

O resultado que Meirelles conseguiu com o seu “Ensaio Sobre a Cegueira”, um projeto pelo qual o cineasta lutava por anos para adaptar até receber a aprovação de José Saramago (autor do romance), é um drama menos complexo do que se imaginava, ordenado com criatividade, mas com muita insegurança.

Não se trata de uma comparação, mas às distâncias (bem às distâncias), o público experimentará sensações similares àquelas de “Dogville”, do diretor dinamarquês Lars von Trier. Se no filme alternativo de 2003 Grace (Nicole Kidman) era uma heroína diante de figuras que representam toda a sordidez de nossa sociedade de ontem, de hoje e de sempre, A Mulher do Médico (Julianne Moore) também é posicionada nesta situação, ainda que num cenário ainda mais caótico após uma cegueira branca se alastrar por todo o mundo.

E, assim como Grace, A Mulher do Médico tem o poder (a sua imunidade perante esta “praga indecifrável”) que pode trazer a resolução deste problema, ainda que se comporte passivamente, passando-se também por infectada por este mal.

Meirelles se mantém fiel à estrutura do livro, fazendo com que a identidade de seus personagens ou mesmo o ambiente no qual eles transitam seja de pouco valor, e a fotografia de César Charlone somada aos sons compostos por Marco Antônio Guimarães auxiliam para que este ensaio de um caos ao qual o título original sugere tenha muito a ver com a forma como os seres humanos se rebelam em situações de risco e puro desespero.

O problema se concentra na transição dos três atos do filme. Bem distintos entre si, a impressão é que Fernando Meirelles se deixou levar demais pela recepção de sua obra em sessões-teste ou mesmo de sua première em Cannes, realizando alguns cortes que talvez impossibilitaram que a ação inicial, como aquela de reclusão, e a libertação posterior se unissem com maior harmonia.

Entretanto, isto não faz com que o poder do texto de Don McKellar seja totalmente amenizado.

★★★
Blindness
Direção de Fernando Meirelles
Assistido nos cinemas (Fox Film do Brasil)
Texto originalmente publicado em 20/01/2009

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