Curtas-metragens de terror são fáceis de se tornarem virais, sobretudo porque muitas vezes se comportam como um breve exercício de como atingir o objetivo de assombrar o espectador. No entanto, falhar em entender como ir além disso se mostrou justamente o que condena a transição dessas obras para longas-metragens.
Se títulos como “Quando as Luzes se Apagam” e “Selfie Para o Inferno” foram certeiros na hora de pregar o susto, as tentativas de estabelecer núcleos dramáticos dentro de uma narrativa central consistente e prolongada foram, no mínimo, patéticas.
Ao lado de Curry Barker, que aos 26 anos tem desafiado a lógica comercial com a exibição de “Obsessão” nos cinemas, Kane Parsons surge com “Backrooms: Um Não-Lugar”. O jovem traz a promessa de fazer a já não tão independente A24 quebrar os seus próximos números na estreia a partir desta quinta-feira, isso com apenas 20 anos.
Ainda adolescente, ele fez uma série de vídeos experimentais para o YouTube acerca da lenda urbana digital dos backrooms. O conceito consiste basicamente em uma realidade paralela quase toda arquitetada por salões planos e vazios, similares aos de escritórios administrativos, que apresentam distorções conforme a coragem de um indivíduo em explorar o seu mapa labiríntico.
A ideia de encarar esses cômodos incandescentes, cujas extremidades estão cercadas de passagens nas quais coisas se desenham na escuridão, é verdadeiramente aterradora, sobretudo pela proximidade dessa atmosfera com muitos ambientes profissionais tradicionais. A encarnação como curta-metragem, lançada por Kane Parsons em janeiro de 2022, é uma experiência perturbadora que, até o momento, foi visualizada quase 80 milhões de vezes – assista abaixo.
Quatro anos depois, “Backrooms: Um Não-Lugar” ressurge como um filme com quase duas horas de duração, protagonizado por indicados ao Oscar (Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve) e com orçamento de 10 milhões de dólares. Mais uma vez, temos um projeto que não dá conta de dar vida plena às suas origens compactas.
Parsons e Will Soodik (cujo maior crédito foi a escrita em uma dezena de episódios de “Ash vs. Evil Dead”) realmente tropeçam ao estabelecer os seus personagens. A trama traz um arquiteto alcoólatra sobrevivendo como vendedor de móveis (Ejiofor), a sua terapeuta (Reinsve) e um casal (Finn Bennett e Lukita Maxwell) que existe com o único propósito de ser descartado. Há também Mark Duplass, em um papel elucidado somente no ato final.
Reconhecer a falta de dimensões nessas criações humanas, cujos dramas operam somente para que todos sejam confinados justamente nesse universo peculiar, é o que faz “Backrooms: Um Não-Lugar” se livrar do destino dos filmes parentes citados no início deste texto. Pois quando Kane Parsons realmente foca em atmosfera e puro terror, a sua criação é efetiva, quase brilhante.
Além de registros com a estética de fita cassete que quebram a aparência limpa e geométrica da realidade, “Backrooms: Um Não-Lugar” realmente proporciona esse medo tão primitivo de se ver encurralado no fim de um cômodo, cercado de criaturas que fogem da nossa compreensão.
★★★
Backrooms
Direção de Kane Parsons
Em cartaz nos cinemas (Imagem Filmes)

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